Entrevista - Escritores da Web


Fui convidada a bater um papo sobre minha produção literária para a matéria 'Escritores da Web'. Confira na íntegra (no link abaixo) a entrevista que concedi, junto com uma galera bacana, à jornalista Graziela Fioreze sobre produção de conteúdo multiplataforma, a ideia do blog, meu interesse pela escrita, projetos pessoais, o que penso a respeito do papel da internet na propagação de bens culturais como a literatura e outras coisas mais.



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A primeira vez que vi Luíza




A segunda vez que Carlos viu Luíza, ela sorria sem pressa de devolver o branco dos dentes ao céu da boca. A morena, de pele dourada, estava deitada sobre a canga de estampa indiana e batia a pontinha dos pés na areia de um jeito descompassado, embalando-se na diversão de seus headphones. Naquela tarde, Luíza trocou a aula de fotografia da faculdade de cinema pela companhia do sal e do mar. Na visão de Carlos era assim: Luíza em primeiro plano - linda! A bicicleta ao lado, também deitada na areia; na sequência, a garrafinha d'água, o protetor solar e a bolsa. Carlos gravou aquela cena com retinas zelosas, imerso na precisão para longas distâncias que só os homens têm, registrando frame a frame, capturando os milésimos de segundo com a disciplina de um relógio britânico em terras tupiniquins. Estava no ângulo mais favorável que poderia haver - o do sorriso de Luíza. Nos dias que seguiram, continuou editando as cenas na memória, percebendo-se extasiado com o jeito que Luíza levantava, alongava-se vagarosamente, esticava os braços sobre a cabeça e terminava batendo as mãos contra as coxas para tirar o excesso de areia da pele. O que os amigos mais ouviram, na época, era que ele havia encontrado a perfeição em mulher. Perfeita até os infortúnios cotidianos começarem a atrapalhar a relação que os dois tiveram.

Luíza e Carlos haviam se conhecido uma semana antes daquele dia na praia. Estudavam na mesma universidade, o turno coincidia e alguns amigos também. Ele cresceu na cidade cinza e barulhenta, pediu transferência do curso de jornalismo para morar na praia, levar uma vida mais tranquila, repor vitamina d, respirar ar puro, diminuir as crises de pânico. A verdade é que a nova cidade só o fazia transpirar - fosse pelas altas temperaturas que os termômetros acusavam, fosse por Luíza. Na primeira festa da turma, ficaram juntos. E essa foi a décima segunda vez que Carlos viu Luíza. De lá pra cá, engataram um romance. Três meses e já estavam dividindo a pia do banheiro, a cama e o aluguel, até, claro, começarem as brigas. Antes delas, a história é a mesma dos novos casais: sexo-sofá, sexo-cinema, sexo-sexo-sexo, até passar para sofá-cinema, sofá-sofá, sexo, brigas-sexo-brigas, brigas, sofá. Um leque variado de desavenças soprou ventos difíceis. Foi aberta a temporada de picuinhas. Luíza não suportava cheiro de leite e Carlos deixava o copo sujo de nescau, todas as noites, no criado-mudo - que amanhecia tomado com formigas. No primeiro mês, ela levou na boa, um mês e nem mais um dia.

No mês seguinte, ele continuou por implicância, dizia que Luíza ficava linda, brava. Carlos passou a alimentar uma implicância e impaciência pela coleção de orquídeas de Luíza, que a essa altura já não sorria mais. Na guerra dos sexos, ambos acusavam-se e era sempre o outro que deveria estar mais atento ao vencimento das contas, disposto para dar jeito na louça suja, vigilante na comida do cachorro, cuidadoso no revezamento do lixo do banheiro, animado para apagar a luz e para o sexo. Acontecia que Carlos adorava a noite e Luíza era solar. Na tardinha daquele que seria o último fim de semana juntos, começaram a brigar pelo novo seriado que queriam assistir. Luíza apertou o pause do controle remoto e pediu um tempo, disse que era melhor devolverem as chaves e entregarem o apartamento aos donos. Carlos tomou um susto e profundamente ofendido, dizia não confiar nessa coisa de tempo, era coisa de gente masoquista, instável, indecisa, infantil. A verdade é que ele nunca havia presenciado Luíza naquele estado. 

Quando entendeu que ela estava mesmo decidida a se separar, Carlos sugeriu terapia de casal. Luíza franziu a testa. Todo mundo já fez terapia de casal, se não fez, um dia vai fazer - argumentava com gestos largos. Luíza colocou os headphones e foi ler um livro na sacada. Jogou-se na rede, abriu a página marcada com o cartão de visitas do primeiro restaurante que foram juntos, até Carlos interromper, insistindo que deviam ver sim, um especialista. Luíza não queria conversa. Nem com Carlos, muito menos com um terapeuta. Ela preferia jogar búzios, fazer o mapa astral, ir num pai de santo, terapia, não. Terapia lembrava sua adolescência rebelde, quando era obrigada a toda semana, sentar-se numa poltrona dura dentro de uma sala com o ar gelado e falar sobre a sua vida durante exaustivos cinquenta minutos. Carlos insistiu que era importante, contou como os seus pais resgataram o casamento que a família, os amigos e eles próprios davam por falido. Luíza pediu licença, foi até o hall, ajeitou as almofadas no chão, acendeu um incenso de lavanda e foi meditar, precisava clarear as ideias.

Carlos entrou em pânico, decidiu pela terapia sozinho. Luíza pegou o protetor solar, a bolsa, os headphones e voltou para o mar. Carlos seguiu na terapia. Luíza permaneceu na areia. Carlos intensificou as sessões. Luíza seguiu cabulando as aulas da faculdade. Levou um tempo para Carlos finalmente compreender que Luíza era uma mulher de alma livre, desapegada. Essa foi a primeira vez que Carlos viu Luíza, que voltou a sorrir.




Quadrilha pós-moderna



Joana amava Douglas 
que curtia as selfies da Luana
que compartilhava os tweets do Pablo
que não sabia se cutucava Marina ou João.

Joana trocou o Face pelo Badoo.
Douglas se apaixonou pela prima distante
do grupo de whats da família.
Luana casou um mês depois de conhecer
um carinha novo no Tinder.
Pablo assumiu-se Lisandra.
Marina virou fotógrafa de Instagram.
João desistiu da palhaçada por nunca
ter recebido nudes de ninguém.


Por Gabriela Gomes
(Adaptação de Quadrilha - Carlos Drummond de Andrade)

Duda, Muriel ou qualquer um de nós



Quando Duda bateu à porta, Muriel sentiu um frio na barriga. Misto de ansiedade e covardia, pois sabia que era necessário parar as coisas onde haviam começado. Lembrou que, há muito, recolhia seus pensamentos e vontades apenas a si e ao seu travesseiro.

Antes de abrir a porta, Muriel parou para ver o seu reflexo no vidro do quadro da sala. Queria estar inesquecível em suas próprias lembranças.

Não houveram cumprimentos formais, um olhar tímido e breve foi o que ela conseguiu oferecer. Já Duda, surgia acompanhado de um enorme sorriso, provavelmente, o seu melhor. Ele era mesmo bom em desconcertar uma parcela significativa de mulheres. Aturdida, Muriel travou os lábios. Ver os outros arrumarem a mala sempre a acometia de um certo vazio. Não fazia juízo de ser bom ou ruim, apenas um nada.

Sabia que era preciso aproveitar aquele momento e aos poucos foi se soltando. Naquela noite conversaram muito, riram outro tanto, compartilharam histórias tolas e alguns sonhos deixados pra trás. Duda subiu no parapeito da sacada, viril e destemido, nada seria capaz de intimidá-lo naquele momento. Muriel implorava para que descesse dali, carregava um medo e tristeza antecipados. Chegou a sentir raiva de si, mas sabia que era a melancolia da ocasião. A fórmula: madrugada + a pessoa de quem se gosta + coração aos pulos não poderia oferecer outra coisa. Pelo menos não a nossa menina. 

Neste misto de emoções, ouviram música, falaram da vida alheia, recordaram histórias da adolescência, lembraram dos apelidos de escola. Muriel até perguntou, mas Duda não dividiu nenhum de seus planos futuros. Recolheram-se na cozinha enquanto ela esquentava a água para o café. Recostados no balcão da pia aguardavam em silêncio o chiar da água quente. Ele pegou duas canecas, providenciou o café - o dela sem açúcar, e brindaram à madrugada.

Brindaram a cada gole. Ele ofertava aos dois, enquanto Muriel baixava os olhos e sorria como a querer nada e tudo de vez. Encarar os olhos de Duda era como afrontar os próprios olhos no espelho. Voltou sua atenção aos sinais do próprio corpo e entrou em desconfortável alerta: sentia as mãos suarem, a respiração acelerada e curta, a gastrite nervosa desconstruía aquele momento que tinha tudo para ser perfeito. 

Foi Duda quem se antecipou e buscou a chave que repousava na porta, girou a maçaneta com a convicção de que era hora de partir. Muriel chegou a falar baixinho que abriria para que ele retornasse, conforme reza os mandamentos dos supersticiosos. Trocaram um abraço demorado e em silêncio disseram adeus. Duda partiu sem olhar pra trás.

Muriel ficou tentando descobrir em que momento esquecera aberta a porta pela qual Duda entrara em sua vida. Desta vez ele apenas houvera feito o caminho inverso. Ou como um ladrão que furta o que se tem de mais precioso e foge pulando a janela. Assim como acontece na nossa vida, Duda saiu da vida de Muriel sem nunca ter entrado de verdade.

Tem conto meu na Amazon

Alô, alô, pessoal! Hora do jabá literário. 

Meus contos "Encarnado" e "A primeira vez que vi Luiza", para o concurso Brasil em Prosa, (pensou que eu escrevia só crônicas, é?) estão disponíveis para leitura no site da Amazon. Tô achando super legal! Quem quiser conferir, pode ler de graça pelo Kindle Unlimited ou pela conta degustação. Já quem, assim como eu, não tem Kindle, pode baixar tranquila e gratuitamente o e-reader para computador ou aplicativos para iPad e celular (são diversas as opções oferecidas pela casa). Eu mesma uso pra ler no computador e acho super prático, bom e intuitivo. 

Ah! E se você quiser contribuir com o cafezinho da escritora que vos fala, pode comprar com 1-clique cada conto por apenas R$ 1,99. Vou ficar bem feliz!

Abaixo deixo pra vocês uma pequena degustação de cada uma das histórias, com temática e estilos bastante diferentes entre si. Confere e depois me conta, tá?

Super beijo.



             A segunda vez que Carlos viu Luiza, ela sorria sem pressa de devolver o branco dos dentes ao céu da boca. A morena, de pele dourada, estava deitada sobre a canga de estampa indiana e batia a pontinha dos pés na areia de um jeito descompassado, embalando-se na diversão de seus headphones. Naquela tarde, Luiza trocou a aula de fotografia da faculdade de cinema pela companhia do sal e do mar. Na visão de Carlos era assim: Luiza em primeiro plano - linda! A bicicleta ao lado, também deitada na areia; na sequência, a garrafinha de água, o protetor solar e a bolsa. Carlos gravou aquela cena com retinas zelosas, imerso na precisão para longas distâncias que só os homens têm, registrando frame a frame, capturando os milésimos de segundo com a disciplina de um relógio britânico. Estava no ângulo mais favorável que poderia haver - o do sorriso de Luiza. Nos dias que seguiram, continuou editando as cenas na memória, percebendo-se extasiado com o jeito que Luiza levantava, alongava-se vagarosamente, esticava os braços sobre a cabeça e terminava batendo as mãos contra as coxas para tirar o excesso de areia da pele. O que os amigos mais ouviram, na época, era que ele havia encontrado a perfeição em mulher. Perfeita até... (continue lendo)




Uma semana e eu não seria capaz de cometer essa loucura. O que será dito à boca miúda já não importa. Não estarei mais aqui para saber, pelo menos não de corpo presente. Dos últimos meses só restou o amargo na língua; e esse gosto ressentido me lembra ela. Não há fluido que lave, cerdas que expulsem, hortelã que distraia o paladar embolorado. Inapetência pela vida. Eu tentei seguir em frente e a que isso me levou? Para lugar algum. Ou melhor, à podridão desse quarto cor de abóbora passada, fedendo a mijo e rato morto. (continue lendo)




A Paciência das Pedras



Chego a Paraty diazinhos antes da 13ª edição da Flip. Mário de Andrade é o escritor homenageado e é a primeira vez que meus olhos tocam a cidade solar. Que bobagem a minha pensar que não pudesse dar-me ao espanto antes do contato com os livros e autores - como se fosse preciso mesmo homens letrados para explicarem a vida que se leva.

Saí para conhecer a cidade e ao avistar os barquinhos coloridos atracados no cais meu ímpeto foi navegá-los. Me aproximo do cordão de pedras que faz limite com as águas e ali está um deles batizado de "Gaby & Morena" dançando ao canto das marés. Sorrio e faço alguma força para acreditar não ser coisa do destino.

Ao desbravar o Centro Histórico e suas ruazinhas Paraty me ensinou a paciência das pedras. Aqui ninguém caminha bonito, todo andar é trôpego, meio desajeitado e desapressado. Distinguimos turistas de moradores locais mais pela pressa do caminhar do que pelas câmeras fotográficas.

O mar de pedras que se espalha entre as ruazinhas dos casarões de janelas e portas coloridas convidam ao improviso. À noite, percebi vindo em sentido contrário ao meu uma menina toda queixosa pois vestia sandálias de salto alto fino agarrada ao namorado, entendi que cada um anda não do jeito que quer, mas do jeito que dá.

Fico então sabendo que as pedras por onde nossos pés dançam se chamam pés de moleques pelas crianças escravas que nelas trabalharam. Penso em Isabel, penso em 1888, penso nas crianças e quase posso enxergá-las. Tento pisar macio como se a história já não fosse machucada.

Em Paraty, somos convidados a descer do salto. Cabe o aconchego dos chinelos de dedos, dos tênis, das rasteirinhas e toda sorte de sapatos baixos. Paraty é uma cidade feita para as pessoas olharem-se na altura dos olhos. Só não se observam um pouco mais porque precisam prestar alguma atenção aonde pisam ou então o risco do tombo, do tropeço e um desastrado escorregão. Raras vezes me senti confortável com a vulnerabilidade do meu próprio caminhar. Na cidade solar os adultos é que viram moleques reaprendendo a andar. Estão todos brincando de amarelinha com as pedras e não parecem querer chegar ao céu, já estamos no paraíso.

E tem também as cores, as luzes, as praias, os barcos, as pessoas, a arquitetura, a cultura, os bares, as músicas, os sotaques, os artistas de rua, os azulejos portugueses e as esquinas. Como são lindas as esquinas de Paraty! Ah, e tem também a Flip, como quase ía esquecendo e que me perdoe Mário. O que sei é que nunca fui tão feliz com tantas pedras no meio do caminho.

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Dica Cultural - Monólogo Biafra

A dica cultural para quem estiver em Porto Alegre nos dois próximos finais de semana é o monólogo Biafra, que estreia hoje - 05 de junho, no Teatro de Arena. Baseado no livro homônimo de Cínthya Verri (vencedor do Prêmio de Criação da Biblioteca Nacional da FUNARTE 2012), o espetáculo apresenta uma abordagem ficcional sobre o transtorno alimentar, onde uma jovem médica se vê inesperadamente grávida e começa uma guerra interna com sua obsessão pelo controle do corpo e pela magreza.




A atriz Gisela Sparremberger incorpora a personagem Biafra sob a direção de Cristiano Godinho. Ambos já trabalharam juntos ao dividirem o palco no fenômeno da internet "Coisas que Porto Alegre Fala", que também virou peça de teatro e ganhou uma série na televisão.




No palco, Biafra aborda os segredos e dramas do transtorno alimentar, da espera de um filho e de ser mulher. Os conflitos da personagem abrem discussão para o tema e para a doença que é o transtorno psiquiátrico mais mortal de todos. Quatro vezes mais riscos do que a depressão grave, o dobro da esquizofrenia e três vezes mais risco de morte do que o transtorno bipolar.

Onde: Teatro de Arena (Av. Borges de Medeiros, 835 - Porto Alegre/RS)
Quando: De 5 a 14 de Junho de 2015 (Sextas e Sábados, às 21h, Domingos, às 20h)
Quanto: R$ 30,00 (Estudantes, Idosos, Classe Artística mediante apresentação de documento comprobatório - R$ 15,00)

MISOGINIA - Parte I

Quando publiquei o texto "5 Tipos de Homem para Esquecer" - crônica que brinca com perfis masculinos que possivelmente darão dores de cabeça para uma relação, citei ao final - então de forma séria, o misógino.

A partir desta publicação, diversas mulheres entraram em contato comigo relatando experiências afetivas conturbadas e destrutivas. Possivelmente, algumas com a ativa e opressora participação de um misógino.

Motivada por esses apelos e pedidos reais de ajuda, fui atrás de respostas mais profundas, trazendo comigo a curiosidade habitual sobre o comportamento humano e laços afetivos. Ou como as coisas funcionam quando não funcionam.

O texto que segue, foi escrito após longa pesquisa e conversas com médicos psiquiatras, numa tentativa de elucidar e convidar todos para a discussão. Eu prefiro sempre pensar que conversando a gente se entende.



Pesquisas apontam que "a cada uma hora e meia, uma mulher morre no Brasil pelo simples fato de ser mulher." São 15 vítimas por dia e cerca de 5.600 ao ano - os números são de setembro de 2013, levantados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). 

EPÍGRAFE


E não viveram felizes para sempre.

O INÍCIO DA HISTÓRIA


Tá tudo lindo. O coração anda num pique danado. Pelo menos, aparentemente tudo está bem. Super bem aliás - e obrigada por perguntar. Uma nova história, um parceiro que você ama, novidades, fôlego renovado, vida em movimento, gentilezas e aquele pensamento frequente: "acho que encontrei o cara certo".

Após certo tempo de relacionamento, as coisas começam a mudar. Não como acontece com a maioria das relações afetivas que ficam desgastadas naturalmente, mas mudam de forma abrupta e bastante negativa.

Como se da água para o vinho, como se num grande susto, o parceiro que tratava você com extrema cordialidade, educação de quem parece ter frequentado as melhores escolas e cursos de boas maneiras, míngua e começa então a revelar um comportamento avesso.

O homem amoroso sai de cena, deixando emergir um lado perverso - mais latente do que o normal - porque sim, todos temos as próprias sombras. O que era doce e aparentemente equilibrado mostra a verdadeira cara, confirmando que não passava de idealização o que fora vivido até então.

Insultos, maus-tratos, acessos de raiva, reclamações excessivas, críticas constantes e torturas psicológicas (e/ou físicas) tomam conta do cenário que gradualmente torna-se devastador. A primeira reação (pois é difícil agir ao não saber o que está acontecendo) é a mulher duvidar de si - nada pode ser mais triste. Ficando desolada, perdida, confusa, sem entender onde foi parar o homem pelo qual se apaixonou.

Existe um sentimento latente de culpa. Um sentir-se inadequada e uma verdadeira opressão pela mudança brusca de comportamento do parceiro, pela relação e situação que se instala. O que parece ser coisa da nossa cabeça está sim, acontecendo - mesmo que seja mais simples fechar os olhos ou olhar para o lado. Perguntas como: "O que está acontecendo comigo?", "O que está acontecendo com ele?", "O que fiz para ser destratada assim?", "Ele não me ama mais.", "Eu devo ter pedido por isso mesmo!" são maneiras de pensar frequentes nesses casos e questionamentos de uma mulher com a autoestima já devastada.

Do outro lado, um homem agressivo, opressor e dissimulado começa a mostrar toda sua violência. O cotidiano vira um terror psicológico e são crescentes as ameaçam à integridade física e moral da vítima. (uma vítima real, diga-se por certo)

Eis a Misoginia. Um assunto extremamente sério, complexo e profundamente delicado. Casos que acontecem a perder de vista com mulheres no mundo todo e por isso mesmo merece ser revelada e discutida abertamente, sem preconceitos, sem amarras, com total liberdade de pensamento - porque de aprisionador já basta a relação. 





 
A Cronista © 2013 | Gabriela Gomes. Todos os direitos reservados.