Entre Umas & Outras

O programa CVExplica (do qual fiz parte ano passado com minhas crônicas faladas) está em novo formato. Agora estamos "Entre Umas e Outras". Bate-papo descontraído com mulheres interessantes de diferentes idades. Juntamos diversas experiências para falar de tudo o que nos interessa. E eu estou nessa! Transmissão AO VIVO, às quintas, +ou- 21h, pela www.radioeletrica.com. No comando: a médica psiquiatra Cínthya Verri. O convite está feito. Nos acompanha nessa?


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FAÇA COISAS INTERESSANTES

"FAÇA COISAS INTERESSANTES E COISAS INTERESSANTES ACONTECERÃO COM VOCÊ."

Desde a primeira vez que ouvi essa frase em uma aula sobre criatividade, anos atrás, lembro dela com frequência. Sabe quando a vida ameaça ficar monótona, enfadonha e sem graça? E sabe quando isso realmente acontece? É esse um dos mantras que me salva da inércia e me convida ao movimento.

Busco essa quase-oração no íntimo dpequeno-deus que me habita e venho chamando de memória. Toda vez que o desejo de viver é substituído por um existir preguiçoso que me joga numa zona de conforto e me desconecta das pessoas e muitas vezes de mim mesma, eu penso nas infinitas possibilidades de coisas que poderia estar fazendo. Não significa que eu faça a maioria delas, mas me sinto mais confortável em ir experimentando o novo.

"Faça coisas interessantes e coisas interessantes acontecerão com você" não significa fazer algo em busca de determinados resultados - embora seja isso também. Não é esperar por justiça, merecimento, retornos externos. É ir observando o que vai mudando dentro da gente durante o percurso.

Delicadezas




- Eu não sei muito bem o que está se passando comigo.

- O que você está sentindo?

- Ando sofrendo de delicadezas...

- E como, por acaso, é sofrer de delicadezas?

- São arroubos diários de ternura. De repente, vai ficando tudo tão mais suave. A vida se torna mais possível. Eu me pego rindo à toa, sozinha, em público. Vontade imensa de abraçar o mundo. Ando abraçando até a mim! – sozinha no quarto que é pra não parecer louca, claro.

- Tá, para! Desde quando sutileza e alegria viraram sinônimos de sofrimento?

- É pela disponibilidade. Parece-me errado estar tão entregue assim.

- Preferia esconder-se da vida?

- E, se possível, das pessoas também.

- E então seria você com você mesma pelo resto dos tempos.

- Ah! Às vezes, acho que seja possível.

- Hipótese por hipótese, isso aí tá me cheirando a encrenca, digo, paixão.

- E se no lugar de paixão for amor?

- Também fodeu!

- Como a gente sabe se é paixão ou amor?

- A gente não sabe. O corpo é que intui.




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Agora você pode ouvir minhas crônicas

Hello, everybody!

E aí, todo mundo bem? Espero que sim!

Faz tempo que não divulgo minhas "crônicas de ouvido" aqui no site. Então, se você é novo pelas bandas de cá, está convidado a conhecer e dar um pulo lá no meu canal no SoundCloud para ouvir alguns textos gravados por mim ao longo dos últimos meses. A maioria das crônicas foi ao ar no programa CVExplica, da Rádio Elétrica.



Ouça-me mucho aqui ó:  www.soundcloud.com/acronista



Ah! Depois volta pra me contar o que achou, tá? Vou adorar mesmo saber a sua opinião.

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Obrigada pela companhia!
Muitos beijos,

Gabi. 

O tempero da vida



Um amigo bastante querido queixava-se da vida. Dizia ele que havia perdido o gosto pela maioria das coisas que antes o enchiam de prazer - não tinha mais gosto pela profissão, os compromissos eram todos insossos, a rotina enfadonha e a maioria das pessoas indigestas - o que lhe causava um verdadeiro mal-estar. Após horas de conversa franca, como só os bons amigos são capazes de oferecer e partilhar, concluímos que o que faltava na sua vida era tempero. Sobrava capacidade inventiva, mas a criatividade estava encoberta por uma grossa camada de desgosto. Os ingredientes estavam todos ali, mas pediam uma pitada diferente para ressaltar o sabor.

Até sabemos o que adoça ou azeda os nossos dias, mas diante de inúmeras possibilidades não é tão simples trabalhar diariamente o que aguça o nosso gosto em viver. E o desafio vai além: é preciso continuar nutrindo e mantendo o frescor daquilo que nos cai bem. Requer alguns experimentos, combinações previsíveis ou mais exóticas. Não tem receita exata porque o paladar também varia – como nós que nos descobrimos diferentes ao longo do tempo.

Como temperar a vida a gosto? A família, os amigos, os amores, o trabalho, o lazer são ingredientes básicos – e os problemas também entram para engrossar o caldo. Haja saúde e discernimento. Os ganhos são proporcionais às formas que alimentamos esses diferentes setores. Se o amor apimenta, as amizades adoçam – da mesma forma que dedicar-se a algo que lhe encanta dá um toque refinado e especial aos dias. Já ouviu falar que pessoas interessadas costumam ser pessoas interessantes?

Você é o grande gourmet do próprio banquete. Escolha o tempero de sua preferência e descubra qual sabor quer que se sobressaia. O importante é tornar a vida mais palatável, seja descobrindo novos lugares, conhecendo novas pessoas, trocando receitas ou experimentando diferentes prazeres. Não perca a capacidade de se surpreender. A gastronomia e a vida são universos semelhantes de encantamento, só precisamos estar abertos para degustá-los com vontade. Ora com delicadeza, ora com voracidade.

Faça o que você gosta e então o que deve ser feito estará feito. Viva longe de culpas – sentimento de culpa é uma invenção criada pelo homem, apenas para justificarmos nossas más escolhas. Ou esconder nossos desejos reais e mais genuínos.

Deleite-se em todos os momentos para que nenhum sabor lhe escape. Vale testar novos pratos, errar a mão vez em quando também é permitido – é tudo reflexo de como estamos no momento e sinal de que seguimos tentando.  Faça bom proveito. Doce, agridoce, com ou sem pimenta, uma coisa é certa: a vida foi feita para você se lambuzar. 

Tudo bem, tudo certo



E daí que em determinado momento da vida, depois de conhecer pessoas de todos os tipos, jeitos, gostos, vontades, de passear por diferentes geografias e lugares, de participar diariamente de novas histórias – ora como protagonistas, figurantes ou mesmo antagonistas (porque não dá pra ser bacana em tempo integral), depois de diversificar problemas, servir-se do melhor banquete, comer o pão que o diabo amassou, socar a parede, as almofadas, dar murro em ponta de faca, quebrar os pratos, chegamos à conclusão de que dá pra levar as coisas de uma forma mais easy baby – pelo menos no que diz respeito à nossa relação conosco – que se reflete na relação com os outros. Mas talvez, seja preciso antes esgotar as possibilidades à exaustão.

Depois dessa conversa que realizamos dia após dia internamente, prestando-nos ao papel de único interlocutor: que pergunta, responde, duvida, aprova ou censura os próprios pensamentos – e que a esta altura já parecem muitos, concluímos que dá pra levar tudo mais na boa – afinal de contas a nossa vida é pra gente. Se não estivermos atentos a nós, corremos o risco de viver a vida em função dos outros – o que dependendo da constância e intensidade é capaz de significar o mesmo que viver de expectativas: um curto caminho para a ansiedade e frustrações.

E daí que em determinado momento da vida decidimos pegar leve por pura experiência. Ph.D.’s em chateações somos curados pelos próprios aborrecimentos. É como o veneno 
sendo o próprio antídoto.

E daí que tudo bem dedicar-se a alguém sem aguardar recompensas. Querer bem por simples empatia me parece recompensa das boas. Vamos nos dando conta de que tudo certo se alguém não consegue dizer que ama você e que a maior declaração já feita foi em um momento de enorme fraqueza e franqueza ter deixado escapar: “que bom que você está aqui”. O importante é o que você expressa.

E daí que tudo bem estar exercendo uma profissão que não dá tanta grana assim. Afinal, há tantas outras vias expressas de riqueza. Pode ser a satisfação pela função exercida, o reconhecimento por si só, a vocação ou a paixão. Mas tudo bem também se for a grana pela grana e um bater de cartão entediante. O seu trabalho é pra você. Decida o que quer dele.

E daí que tudo certo se o parceiro já teve outras pessoas, se fez sexo dos bons, experimentou posições que até você – que não é ciumento, não gostaria de tomar conhecimento de detalhes. Todo mundo tem um passado e lutar contra isso é perder tempo e desperdiçar energia. E daí que você também começará a aceitar que as coisas irão durar o tempo que couber a elas – e que você pode ser responsável, mas não culpado por isso.

Se você começar a rezar o mesmo mantra que recito agora vai constatar que melhor viver pra si junto aos outros, do que em função dos outros. É mais produtivo aprender a gostar do que se tem do que ficar brigando com a realidade.

Nó Vital


Querida Clarice,

Recebi sua carta alguns anos depois. E sinto como se há muito andasse mergulhada em mares que desconheço. Deixei-me levar pela força da correnteza, esquecendo-me da fragilidade do corpo, do enrugamento da pele e, sobretudo, que a nossa alma também precisa respirar para não envelhecer muito antes.

Eu me desliguei da minha própria consciência, desconectando-me de mim, fechando os olhos para minhas necessidades vitais. Não falo da água e do pão, que sustentam o corpo, mas das vontades da alma – que são o alimento da vida e de toda nossa existência. Da vontade da alma de expandir-se o tanto quanto possa, de trair as tradições, de ser o que é com a liberdade possível, que não é absoluta, mas já é algum alargamento de fronteiras. Eu sufoquei essas vontades a ponto de não estar atenta a mim. E como é triste não estar atento a si, é como viver uma vida ditada pelos outros – que também é o mesmo que deixar de viver.

Sim, minha irmãzinha, achei que pudesse levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma, fui negligente com meus deveres comigo, subestimei os poderes do tempo e do ambiente sobre mim. Eu suspeitava da possibilidade de transformação, mas não contava que pudesse afastar-me tanto assim de quem sou. E que já não sou mais pelo instante que passa. O quanto na verdade foi afastamento e o quanto foi mudança? Embora estivesse mudando, deixei de me acompanhar.

Não há forma de sairmos ilesos da vida. E por mais que você diga o contrário, eu já não me sinto toda viva. Tomar ciência disso é muito duro, minha querida. Viver o luto da própria vida é contraditório, é viver diariamente a própria morte – quando para viver a própria morte só se estando morto – é como experimentar delírios de brincar de Deus.

Pergunto-me, há quanto tempo venho suprimindo o meu nó vital? Respeitando os outros mais do que a mim. Por que aceitar pactuar com a vida de terceiros deixando de lado as necessidades da minha própria existência? “Respeite a você mais do que os outros. Respeite suas exigências.” – você me disse. Você tinha toda a razão, tudo isso teve um preço muito alto – e que quase me custou a própria vida. Não há maior solidão do que estar ausente de si.

Beijos,

Sua irmã de alma.

Entrelinhas



- Oi, como vai você?

(Vou do jeito que dá. Vou, aliás, do meu jeito que é o jeito possível. Sigo em frente pra não perder o ritmo, porque se parasse agora juro não saber onde acabaria. Provavelmente, me perderia por aí, mudava o curso e a direção para desaparecer na primeira esquina. Mas também não tenho certeza se você realmente se interessa. Você se interessa? Se eu disser o que sinto agora, de verdade, na lata, na surpresa, talvez o pegue deveras despreparado por estar quebrando o ritmo de um diálogo cotidiano tão previsível e normalmente raso, porque desarmaria de imediato a sua pergunta retórica, atropelando a chance de uma resposta corriqueira e evasiva, de você dizer que está tudo bem – mesmo que não esteja. “Oi, como vai você?” se tornou uma pergunta tão banal quanto “Será que chove?”.

Se, por exemplo, agora que você me olha com doçura e sorriso aberto esperando uma resposta para poder seguir em frente eu disser que não estou legal, você teria tempo de parar para me ouvir? Possivelmente, você também esteja pensando o mesmo a meu respeito e limite-se a dizer que está “na correria”. Todos estão na correria. O mundo anda cada vez mais avesso às nossas vontades e gira em velocidade frenética, deixando-nos neuróticos. O dia a dia nos escapa tão sorrateiro que é preferível e conveniente que deixemos a franqueza para outro dia, afinal, temos uma rotina pesada a ser cumprida.

Presumindo que eu realmente me interesse pela sua pergunta e você francamente se importe como me sinto, se eu falasse tudo o que me assola neste momento você desistiria de me saber verdadeiramente? Entendo o desconforto, tem dias que nem eu reparo como me sinto até alguém perguntar como estou. Sei lá, acho que essa pergunta deveria ser proibida em dia cinza. Dia cinza é um convite a olhar pra dentro e o que se esconde lá pode ser um perigo. Mas é mais perigoso não saber o que nos habita. Melhor evitar. Não quero desfazer esse seu sorriso. Só continue me olhando.

Você aí parado na minha frente, me encarando enquanto mantém o sorriso aceso e eu aqui pensando esse monte de bobagens, pensando inclusive que tenho pensado muito em você. Tanto que me distraio. Tanto que me perturbo. Tanto que me perco nesse riso branco. É como se não soubesse onde você termina para que eu comece. Distraio-me com seus cílios compridos que se beijam a cada fechar de olhos – já falei que acho um charme cílios longos e o quanto gosto deles?

Saudade da sua pele contra o sol. Imagino o sol nesse dia sem cor. Imagino como anda a sua rotina e como vai a sua nova vida. Será que você ainda prefere o lado esquerdo da cama e dorme com um travesseiro entre os joelhos? São os pensamentos que me prendem a você, são tantos que se enredam uns nos outros – diferente dos cílios que se beijam a cada fechar de olhos e se desprendem suaves. Me olha, mas não assim, por que não saiu andando, me ignorou, não fechou a cara, atravessou a rua ao me ver? Não me dê todo esse tempo para responder o que nem eu sei direito. “Será que chove?” resolveria metade dessa angústia. Eu poderia não responder nada e continuar só te observando. Seu silêncio de espera é quase um pedido para que eu fique. E eu já não sei como ficamos nós).

- Vou bem, e você?


O Homem Ideal


Esqueça os padrões de beleza e de comportamento. Os traços simétricos. O corpo bem definido. Os músculos marcados. O salário polpudo. A distinção nas maneiras. O homem ideal está longe de ser o cara perfeito.
O imaginário feminino é gentil ao traçar o perfil de homem ideal. Porque queremos alguém possível. Desejamos não alguém isento de defeitos, mas um cara de verdade – que caiba em toda a extensão da palavra. Embora gosto se discuta, estereótipos servem apenas para alimentar a ideia equivocada de que as pessoas se repetem em grupos e que permanecem iguais ao longo da vida.
Beleza é importante, mas não é a ela que nos detemos. Também somos seres visuais e apreciamos quem se cuide, gostamos de ombros largos, cobiçamos braços fortes, coxas generosas, uma bunda legal. Mas costumam ser detalhes mais sutis que captam e prendem a nossa atenção: o cabelo desalinhado, a barba por fazer, o jeito que sorri, a forma com que nos olha, o desenho da boca. Essas minúcias que, uma a uma, vão compondo um ser em sua totalidade.
Malhar o cérebro, por exemplo, é tão ou mais importante do que exercitar o peitoral na academia. Admiramos os homens inteligentes e respeitamos os espertos. Que fique claro, no entanto, que dispensamos os espertinhos e queremos distância dos espertalhões. O homem ideal sabe que caráter depois que desvia da rota custa a retomar o caminho de volta e por isso, não vacila.
Ele sabe como lidar com o humor feminino e seu astral é um convite ao riso. Conserva a meninice independente da idade. Compreende que TPM é capaz de nos deixar transtornadas, mas não leva o resultado das alterações hormonais tão a sério – porque além de conhecer, respeita a natureza feminina.
O homem ideal nutre uma paixão inexplicável. Todos os caras por quem me apaixonei tinham gostos e hobbies que os tornavam fascinantes. De cinema polonês a gastronomia. De arte barroca a skate, quadrinhos, música, livro, surf, games. O prazer e tesão que sentiam dava gosto e talvez o fetiche estivesse exatamente na paixão que alimentavam. Pessoas que se interessam tornam-se naturalmente interessantes. São mais vibrantes. É gente que usa a criatividade para se reinventar.
O homem ideal é atento e sabe quando queremos apenas que nos ouça e quando estamos precisando de um conselho. Devolvem chateações e resmungos com inusitados abraços de urso ou qualquer atitude besta – porque compreende que é mais frágil quem levanta a voz. Ele não tem necessidades de impressionar a todo o momento porque confia no trabalho que fez até então – e são exatamente a sua segurança e franqueza que impressionam.
Ele não tem o menor problema em reconhecer a própria fragilidade, em confessar os medos, em dizer que sente saudades e que prefere mesmo dormir agarrado – mesmo que você não goste de dividir o travesseiro.
O homem ideal aceita dividir a conta para que você se sinta independente e oferece um jantar para que não esqueça gentilezas. Capta a hora de se aproximar e dar espaço. Aprendeu a cuidar de quem ama porque soube primeiro cuidar de si. E sabe que o amor soma ao ser dividido.
O homem ideal habita o imaginário feminino como alguém plenamente possível. Disposto a dividir, faz com que toda mulher se sinta confortável sendo quem é.
O homem ideal é alguém que cabe exatamente no nosso mundo – e faltando espaço, a gente ajusta. É alguém que nos lembra que mesmo imperfeitas podemos ser também a mulher ideal para alguém.

Crônica especial para o MeuBairro: http://tinyurl.com/nhqa3kl

Antes Que o Amor Acabe


Amar exige cuidado, requer atenção. Muito além do gostar, o cuidado perante o amor surge também por sabê-lo falível. Não existem contratos ou juras que o torne eterno. Inexiste controle, segurança, prazo de validade. Num vacilo, mero descuido, a qualquer hora, em qualquer esquina o amor é capaz de pedir as contas e solicitar pagamento à vista, embora a dor venha parcelada e nem sempre chegue até nós em suaves prestações.

É como a vida. A certeza da morte treina a coragem. A possibilidade da perda ensina a humildade. Assim como é imprescindível viver como quem sabe que um dia irá morrer, é importante amar contando com o risco de que o sentimento possa acabar, o risco  serve de norte para nosso comportamento.

Antes que o amor acabe, lembre de falar para ela o tanto que a sua presença significa a você, diga como o seu sorriso ilumina seus dias tristes e o quanto a sua risada é capaz de preencher qualquer solidão. Fala pra ela sobre o seu cheiro, a maciez da pele contra a sua, da textura dos lábios, a leveza da alegria. Vale contar também o jeito que você ficou depois que a conheceu, confesse o medo de perdê-la, talvez ela se sinta mais amada.

Antes que o amor acabe, torço para que diga a ele o quanto gosta quando acaricia seu rosto formando conchas com as mãos, que adora e fica satisfeita quando ele a escuta com atenção. Fala do frio na barriga que sente toda vez que ele se aproxima e de como  suas pernas tremeram a primeira vez que provou do seu beijo. Ele vai saber-se especial e é só isso o que importa – ou tudo isso.

Antes que o amor acabe, ofereça sua cumplicidade diária como presente, seu peito como travesseiro, seu abraço como casaco, disponha parte da sua vida para ser compartilhada, diga o quanto se sente vivo por estarem próximos. Não espere pelo fim  para lastimar o que deixou de dizer ou viver junto a ela ou experimentar com ele. Mesmo que o amor não acabe, a vida cedo ou tarde termina. A consciência da finitude é capaz de intensificar nossas experiências.

Especial para MeuBairro: http://ow.ly/ouxei

Voyeurismo


Tenho certo fascínio em conhecer pessoas e seus mundos. De observá-las e imaginar como levam a própria vida.
Adoro brincar de ler as entrelinhas das histórias que contam – mesmo que não exista muito a ser dito ali. De vislumbrar o que sonham, saber quais os seus delírios, esperanças, desassossegos, glórias, perturbações. Tomar conhecimento do que esperam da vida. E se são mesmo de esperar ou de fazer acontecer.
Gosto de observar os transeuntes em zona urbana. De analisar a correria e o caos aos quais se submetem para vencer o dia. Anseio mais pelo desafio proposto do que pela correria em si. Atrai-me a disputa contra o tempo. Aliás, observá-los demanda tempo. E eu dispenso toda pressa para isso.
Alguns dizem que chega a ser voyeurismo. Ok, talvez eu tenha mesma certa inclinação e toda predisposição para isso. Mas é que eu gosto mesmo de gente. De gente e suas histórias. Pitorescas, graciosas, trágicas. Independente do teor, são as histórias que enchem a vida de sonho e realidade.
À noite, me pego fitando as janelas miúdas dos arranha-céus com suas luzes acesas. Observo a movimentação, as cores que saltam das molduras das vidraças – que se assemelham a olhos gigantes a também me observar.
E sigo contemplando o todo e a particularidade da diversidade, até ter a atenção captada por algum novo detalhe. Distraio-me fazendo perguntas. Quem será que mora ali? Como vive? Não me preocupo em respondê-las, deixo a imaginação tomar conta e seguir seu curso, sem urgência.
Só não podia antever, da última vez que me peguei correndo os olhos pelas janelas vizinhas, que não fosse a única ali a ter predileção em espiar a vida alheia. Eu também estivera sendo observada. Não sei dizer por quanto tempo. Nem o que fora exposto. De todos os detalhes que vinha buscando, esqueci que existem outros tantos curiosos assim como eu.

Relações Misóginas - Expondo a ferida


Quando publiquei o texto “5 Tipos de Homem para Esquecer” - crônica que brinca com perfis masculinos e ao final fala de forma séria sobre Misoginia, muitas mulheres entraram em contato comigo contando suas experiências afetivas. Várias mencionavam relacionamentos com misóginos. Motivada por esses apelos, volto a falar sobre o tema. O texto que segue, foi escrito após longa pesquisa e conversas com médicos psiquiatras, numa tentativa de elucidar e convidar todos a discussão. 

  • O QUE ESTÁ ACONTECENDO

Após certo tempo de relacionamento, o parceiro que tratava você com extrema gentileza e educação, começa a mostrar um comportamento avesso. O homem amoroso sai de cena, deixando emergir um lado perverso. Insultos, maus-tratos, acessos de raiva, reclamações excessivas, críticas constantes e torturas psicológicas fazem parte desse cenário devastador – que deixa a mulher perdida, confusa, sentindo-se culpada, inadequada e oprimida – seja pela mudança brusca de comportamento do parceiro, seja pela relação e situação que se instala. Ela sem compreender muito bem, começa a perguntar-se: “o que está acontecendo?”

Eis a Misoginia. Um assunto bastante sério e muito, muito delicado. Algo que acontece a perder de vista com mulheres no mundo todo e por isso mesmo merece ser discutida. Esqueça métodos esdrúxulos com requintes de crueldade e agressões físicas (eles não são regras). O estrago é feito no dia a dia da convivência e pode ser bastante sutil no início, mas ainda assim, corrosivo. Afinal, as palavras também são armas abusivas. E na relação opressor-oprimido, sempre alguém acaba perdendo a voz, geralmente, a mulher que se submete a esse tipo de relação.

Nem sempre é fácil detectar uma situação dessas. Principalmente, quando se trata de uma relação amorosa. É difícil acreditar que o cara que você ama sofra de uma alternância comportamental abrupta do tipo. A sensação é um constante pisar em ovos. Pensamentos possíveis são: “o que eu fiz agora?”, “o que há de errado comigo?”, “Por que ele me trata assim?”, “Por que ele me trata tão mal se diz que me ama?” Chega a parecer surreal pensar que exista no parceiro um prazer velado ao desprezo e humilhação. Mas é exatamente isso que acontece. E a sensação que muitas mulheres descrevem é de estarem “dormindo com o inimigo.”

  • O QUE É MISOGINIA

O termo Misógino provém do grego miso (odiar) e gyne (mulher) e refere-se ao ódio às mulheres ou ódio ao feminino. Significa desprezo ou aversão às mulheres, repulsa mórbida - que é alimentada pelo homem de forma inconsciente, sem significar que ele tenha asco às mulheres ou seja homossexual. Misóginos são, aliás, facilmente confundidos com machistas – e até o são. Mas que fique entendido que nem todo machista é misógino. A distinção é que o machismo acredita na inferioridade da mulher e a misoginia fundamenta-se no ódio e no desprezo. Assim, são estabelecidas relações conturbadas onde o homem é o opressor e a mulher a oprimida.

  • COMO E POR QUE OCORRE

O entendimento da misoginia pode ser alcançado a partir da análise do histórico familiar ou amoroso do homem. Geralmente, são filhos de relacionamentos conturbados que aprenderam pela observação dos pais, que a melhor forma de controlar uma mulher é oprimindo-a. Também podem ter sofrido frustrações e traumas em relacionamentos amorosos anteriores, como um fora doído ou traição.

Embora o trauma sofrido seja anterior, é na parceira que ele desconta sua raiva e frustração. Sua ira é manifestada basicamente contra ela - excluindo o julgamento depreciativo a outras mulheres. Seu alvo é tão definido e direcionado que pessoas que o conhecem socialmente, custam ou até mesmo não conseguem acreditar no seu comportamento opressor e violento. Até porque para proteger-se e eximir-se do sentimento de culpa, o misógino distorce a realidade a seu favor.

A verdade é que ele está em sua fase adulta atuando com o ego infantil. Ele ama mas não sabe cuidar desse amor. Deseja entregar-se, mas seu grande conflito psíquico está entre a necessidade do amor de uma mulher e o medo profundo das mulheres. O medo existente também se refere ao contato com seu mundo interno, tanto que não suporta avaliar seus próprios sentimentos, não conseguindo atingir uma maturidade emocional.

Dentre as principais dificuldades encontradas ao se relacionar com um misógino estão os ataques pessoais, o desvio de culpa, as constantes tentativas de levar à falsa crença de que coisas aconteceram de forma diferente – o que faz a parceira duvidar e questionar a própria memória. Ele tenta o controle total da relação e ao não conseguir, começa com ataques compulsivos e acessos de raiva contra ela. Em sua visão, todos os problemas do relacionamento são culpa da mulher. Ele é apenas a vítima.

  • DANOS CAUSADOS À AUTOESTIMA

Como qualquer tipo de patologia, existem diferentes graus e há riscos à integridade física e psicológica feminina. Entretanto, neste tipo de relação, o principal estrago diz respeito à autoconfiança e autoestima da mulher, que fica profundamente abalada ou até mesmo aniquilada. Se antes ela estava fortalecida, acaba tornando-se frágil e insegura. Leva um tempo até ela entender que não é culpada pelo temperamento e atitudes do parceiro. Vive-se muita tristeza, mágoa e ansiedade.

A maneira menos recomendada de relacionar-se com um misógino é através da conivência, embora não seja preciso sua participação efetiva para que ele tome uma atitude negativa contra você. Mesmo que as agressões sejam apenas verbais é importante saber que incitação ao ódio é crime. Muitas vezes, as mulheres sofrem abusos emocionais e não têm consciência disso. Tornam-se vítimas de homens manipuladores e controladores, que desejam estar constantemente no comando.

  • RETOMANDO A PRÓPRIA VIDA

Se você desconfia que possa estar vivendo um relacionamento tóxico, não deixe de procurar ajuda profissional para entender a partir da visão de um especialista, o que está acontecendo. É fundamental o apoio para voltar a trabalhar a autoestima e resgatar o amor ao eu. É importante uma análise sincera e corajosa para tentar entender o que leva você a submeter-se a este tipo de relação. Seria o medo do parceiro? O receio à solidão? A perda do amor? Várias perguntas são possíveis e pertinentes. Com auxílio, descobre-se como quebrar o padrão de comportamento que constitui tal círculo vicioso.

Quanto ao misógino, o grande desafio é ele reconhecer que existe um problema (poucos buscam ajuda especializada) e aceitar viver uma relação lado a lado e de igual para igual com a parceira. Caso não consigam, desistirão por não submetê-la as suas próprias vontades.

Se você sofre ou já sofreu este tipo de abuso moral, psicológico e/ou físico, busque retomar o comando da própria vida. Uma relação é feita a dois e ambos devem ter voz ativa. Todas nós corremos o risco de sermos vítimas do sexismo, e a melhor forma de evitarmos esta violência é através da informação e do conhecimento.


Sugestões de filmes e leitura:

Magnólia – Paul Thomas Anderson
Morangos Silvestres – Ingmar Bergman

Os homens que não amavam as mulheres – Stieg Larsson
Homens que odeiam suas mulheres e mulheres que os amam – Susan Forward e Joan Torres


 
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