TEDY - O amor não é para amadores

Minha dica cultural para quem estará em Porto Alegre entre os dias 20 a 24 de agosto é o espetáculo “TEDY – O Amor não é para amadores”, com o ator José Henrique Ligabue.



Após uma traumática separação, um palestrante resolve analisar o amor e questiona se vale investir em um novo casamento. Venha rir, aprender e se apaixonar com esta divertida comédia que passeia por obras de Alain de Botton, Zygmunt Bauman, Schopenhauer, Platão e Nietzsche.




Para apimentar ainda mais, o espetáculo conta com uma trilha pra lá de especial de Nei Lisboa.
A Direção Geral é Bob Bahlis. Eu apoio a cultura!

Quando: De 20 a 24 de agosto
Horário: 21 horas
Local: Casa de Cultura Mario Quintana (Teatro Bruno Kiefer)
Ingressos antecipados: Multilentes e Bamboletras

Sobre a Fé



- Mãe! Ô mãe!
- Te aquieta, guri. Já disse que nada de bola dentro de casa. Sossega e senta nesse sofá.
- Mas mãe…
- O que é?
- Eu queria saber o que que é ateu?
- Ateu? Ateu é… Mas onde foi que tu ouviu isso, Bernardo?
- O pai que falou ontem...
- Outra vez teu pai. E o que foi que ele falou agora?
- Ele disse que ele é ateu.
- E tu ainda dá conversa?
- Mas o que é ateu, mãe?
- Ateu é… É gente que não sabe das coisas!
- Como assim?
- Gente que não sabe o que diz ou que fala besteira.
- Hmmm.
- Agora vai lá tomar teu banho.
- Mas mãe…
- Oi?
- E o pai? Ele é ateu porque não sabe o que diz ou porque fala besteira?
- Teu pai não sabe mesmo o que diz. Mas ateu, meu filho, significa aquela pessoa que não tem fé. E é besteira a gente falar que é ateu porque é o mesmo que dizer que não se tem fé. Entendeu agora?
- Ah… Mas da última vez que o tio Mauro teve aqui em casa, eu lembro dele falando que o pai agiu de má fé. Então o pai não é ateu não, mãe! Ele tem fé, só que, às vezes, a fé dele não é boa.
- Não é isso, meu filho…
- E eu, mãe? Eu sou ateu?
- Não, querido. Você não é ateu.
- E o que que é fé mesmo?
- Fé é quando a gente acredita em alguma coisa.
- Ah! Tipo quando você acredita em mim quando eu digo que já escovei os dentes?
- É, tipo quando eu acredito em você quando diz que já escovou os dentes. Mas agora vai tirar essa roupa suada que a janta sai daqui a pouco.
- Mas por que que eu não sou ateu?
- Porque você tem fé, meu amor.
- Como assim?
- A mãe não te ensinou a rezar antes de dormir e agradecer por todos aqueles que nós amamos?
- Uhum.
- Então!
- Então eu não sou ateu porque eu rezo pro Pai do Céu?
- É. Agora vai!
- Tá bom.
- Esse guri tão novo e me vem com cada uma!
- Mas ô, mãe! Eu não entendi direito uma coisa...
- Hum?
- E Deus?
- O que tem Deus, Bernardo?
- Deus é ateu?
- Claro que não, meu filho! Como Deus vai ser ateu se ele é o nosso Pai?
- Mas mãe, então pra quem é que ele reza antes de dormir?

Entre Umas & Outras

O programa CVExplica (do qual fiz parte ano passado com minhas crônicas faladas) está em novo formato. Agora estamos "Entre Umas e Outras". Bate-papo descontraído com mulheres interessantes de diferentes idades. Juntamos diversas experiências para falar de tudo o que nos interessa. E eu estou nessa! Transmissão AO VIVO, às quintas, +ou- 21h, pela www.radioeletrica.com. No comando: a médica psiquiatra Cínthya Verri. O convite está feito. Nos acompanha nessa?


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Faça Coisas Interessantes

"FAÇA COISAS INTERESSANTES E COISAS INTERESSANTES ACONTECERÃO COM VOCÊ."

Desde a primeira vez que ouvi essa frase em uma aula sobre criatividade, anos atrás, lembro dela com frequência. Sabe quando a vida ameaça ficar monótona, enfadonha e sem graça? E sabe quando isso realmente acontece? É esse um dos mantras que me salva da inércia e me convida ao movimento.

Busco essa quase-oração no íntimo dpequeno-deus que me habita e venho chamando de memória. Toda vez que o desejo de viver é substituído por um existir preguiçoso que me joga numa zona de conforto e me desconecta das pessoas e muitas vezes de mim mesma, eu penso nas infinitas possibilidades de coisas que poderia estar fazendo. Não significa que eu faça a maioria delas, mas me sinto mais confortável em ir experimentando o novo.

"Faça coisas interessantes e coisas interessantes acontecerão com você" não significa fazer algo em busca de determinados resultados - embora seja isso também. Não é esperar por justiça, merecimento, retornos externos. É ir observando o que vai mudando dentro da gente durante o percurso.

Delicadezas




- Eu não sei muito bem o que está se passando comigo.

- O que você está sentindo?

- Ando sofrendo de delicadezas...

- E como, por acaso, é sofrer de delicadezas?

- São arroubos diários de ternura. De repente, vai ficando tudo tão mais suave. A vida se torna mais possível. Eu me pego rindo à toa, sozinha, em público. Vontade imensa de abraçar o mundo. Ando abraçando até a mim! – sozinha no quarto que é pra não parecer louca, claro.

- Tá, para! Desde quando sutileza e alegria viraram sinônimos de sofrimento?

- É pela disponibilidade. Parece-me errado estar tão entregue assim.

- Preferia esconder-se da vida?

- E, se possível, das pessoas também.

- E então seria você com você mesma pelo resto dos tempos.

- Ah! Às vezes, acho que seja possível.

- Hipótese por hipótese, isso aí tá me cheirando a encrenca, digo, paixão.

- E se no lugar de paixão for amor?

- Também fodeu!

- Como a gente sabe se é paixão ou amor?

- A gente não sabe. O corpo é que intui.




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Crônicas para Ouvir



[ON AIR] E aí, meus amigos! Todos bem?

Para quem até então apenas lia os meus textos, agora também tem a opção de ouvir algumas crônicas minhas - que chamo de "CRÔNICAS DE OUVIDO". Para quem estiver curioso é só acessar o meu canal no SoundCloud. Fones de ouvido vão bem, pois as gravações não estão lá grandes coisas em termos de qualidade sonora. Mas uma coisa é certa: fiz tudo com um grande tesão e o máximo de carinho.

Venha ouvir! A maioria das crônicas foi ao ar no programa CVExplica, que em seu atual formato chama "Entre Umas & Outras", e vai ao ar às quinta-feiras, 21:00, na Rádio Elétrica.

Ouça-me mucho aqui ó:  www.soundcloud.com/acronista

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Me escreva quando quiser que trocamos umas ideias.

Abraços,

Gabriela.


O tempero da vida



Um amigo bastante querido queixava-se da vida. Dizia ele que havia perdido o gosto pela maioria das coisas que antes o enchiam de prazer - não tinha mais gosto pela profissão, os compromissos eram todos insossos, a rotina enfadonha e a maioria das pessoas indigestas - o que lhe causava um verdadeiro mal-estar. Após horas de conversa franca, como só os bons amigos são capazes de oferecer e partilhar, concluímos que o que faltava na sua vida era tempero. Sobrava capacidade inventiva, mas a criatividade estava encoberta por uma grossa camada de desgosto. Os ingredientes estavam todos ali, mas pediam uma pitada diferente para ressaltar o sabor.

Até sabemos o que adoça ou azeda os nossos dias, mas diante de inúmeras possibilidades não é tão simples trabalhar diariamente o que aguça o nosso gosto em viver. E o desafio vai além: é preciso continuar nutrindo e mantendo o frescor daquilo que nos cai bem. Requer alguns experimentos, combinações previsíveis ou mais exóticas. Não tem receita exata porque o paladar também varia – como nós que nos descobrimos diferentes ao longo do tempo.

Como temperar a vida a gosto? A família, os amigos, os amores, o trabalho, o lazer são ingredientes básicos – e os problemas também entram para engrossar o caldo. Haja saúde e discernimento. Os ganhos são proporcionais às formas que alimentamos esses diferentes setores. Se o amor apimenta, as amizades adoçam – da mesma forma que dedicar-se a algo que lhe encanta dá um toque refinado e especial aos dias. Já ouviu falar que pessoas interessadas costumam ser pessoas interessantes?

Você é o grande gourmet do próprio banquete. Escolha o tempero de sua preferência e descubra qual sabor quer que se sobressaia. O importante é tornar a vida mais palatável, seja descobrindo novos lugares, conhecendo novas pessoas, trocando receitas ou experimentando diferentes prazeres. Não perca a capacidade de se surpreender. A gastronomia e a vida são universos semelhantes de encantamento, só precisamos estar abertos para degustá-los com vontade. Ora com delicadeza, ora com voracidade.

Faça o que você gosta e então o que deve ser feito estará feito. Viva longe de culpas – sentimento de culpa é uma invenção criada pelo homem, apenas para justificarmos nossas más escolhas. Ou esconder nossos desejos reais e mais genuínos.

Deleite-se em todos os momentos para que nenhum sabor lhe escape. Vale testar novos pratos, errar a mão vez em quando também é permitido – é tudo reflexo de como estamos no momento e sinal de que seguimos tentando.  Faça bom proveito. Doce, agridoce, com ou sem pimenta, uma coisa é certa: a vida foi feita para você se lambuzar. 

Tudo bem, tudo certo



E daí que em determinado momento da vida, depois de conhecer pessoas de todos os tipos, jeitos, gostos, vontades, de passear por diferentes geografias e lugares, de participar diariamente de novas histórias – ora como protagonistas, figurantes ou mesmo antagonistas (porque não dá pra ser bacana em tempo integral), depois de diversificar problemas, servir-se do melhor banquete, comer o pão que o diabo amassou, socar a parede, as almofadas, dar murro em ponta de faca, quebrar os pratos, chegamos à conclusão de que dá pra levar as coisas de uma forma mais easy baby – pelo menos no que diz respeito à nossa relação conosco – que se reflete na relação com os outros. Mas talvez, seja preciso antes esgotar as possibilidades à exaustão.

Depois dessa conversa que realizamos dia após dia internamente, prestando-nos ao papel de único interlocutor: que pergunta, responde, duvida, aprova ou censura os próprios pensamentos – e que a esta altura já parecem muitos, concluímos que dá pra levar tudo mais na boa – afinal de contas a nossa vida é pra gente. Se não estivermos atentos a nós, corremos o risco de viver a vida em função dos outros – o que dependendo da constância e intensidade é capaz de significar o mesmo que viver de expectativas: um curto caminho para a ansiedade e frustrações.

E daí que em determinado momento da vida decidimos pegar leve por pura experiência. Ph.D.’s em chateações somos curados pelos próprios aborrecimentos. É como o veneno 
sendo o próprio antídoto.

E daí que tudo bem dedicar-se a alguém sem aguardar recompensas. Querer bem por simples empatia me parece recompensa das boas. Vamos nos dando conta de que tudo certo se alguém não consegue dizer que ama você e que a maior declaração já feita foi em um momento de enorme fraqueza e franqueza ter deixado escapar: “que bom que você está aqui”. O importante é o que você expressa.

E daí que tudo bem estar exercendo uma profissão que não dá tanta grana assim. Afinal, há tantas outras vias expressas de riqueza. Pode ser a satisfação pela função exercida, o reconhecimento por si só, a vocação ou a paixão. Mas tudo bem também se for a grana pela grana e um bater de cartão entediante. O seu trabalho é pra você. Decida o que quer dele.

E daí que tudo certo se o parceiro já teve outras pessoas, se fez sexo dos bons, experimentou posições que até você – que não é ciumento, não gostaria de tomar conhecimento de detalhes. Todo mundo tem um passado e lutar contra isso é perder tempo e desperdiçar energia. E daí que você também começará a aceitar que as coisas irão durar o tempo que couber a elas – e que você pode ser responsável, mas não culpado por isso.

Se você começar a rezar o mesmo mantra que recito agora vai constatar que melhor viver pra si junto aos outros, do que em função dos outros. É mais produtivo aprender a gostar do que se tem do que ficar brigando com a realidade.

Nó Vital


Querida Clarice,

Recebi sua carta alguns anos depois. E sinto como se há muito andasse mergulhada em mares que desconheço. Deixei-me levar pela força da correnteza, esquecendo-me da fragilidade do corpo, do enrugamento da pele e, sobretudo, que a nossa alma também precisa respirar para não envelhecer muito antes.

Eu me desliguei da minha própria consciência, desconectando-me de mim, fechando os olhos para minhas necessidades vitais. Não falo da água e do pão, que sustentam o corpo, mas das vontades da alma – que são o alimento da vida e de toda nossa existência. Da vontade da alma de expandir-se o tanto quanto possa, de trair as tradições, de ser o que é com a liberdade possível, que não é absoluta, mas já é algum alargamento de fronteiras. Eu sufoquei essas vontades a ponto de não estar atenta a mim. E como é triste não estar atento a si, é como viver uma vida ditada pelos outros – que também é o mesmo que deixar de viver.

Sim, minha irmãzinha, achei que pudesse levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma, fui negligente com meus deveres comigo, subestimei os poderes do tempo e do ambiente sobre mim. Eu suspeitava da possibilidade de transformação, mas não contava que pudesse afastar-me tanto assim de quem sou. E que já não sou mais pelo instante que passa. O quanto na verdade foi afastamento e o quanto foi mudança? Embora estivesse mudando, deixei de me acompanhar.

Não há forma de sairmos ilesos da vida. E por mais que você diga o contrário, eu já não me sinto toda viva. Tomar ciência disso é muito duro, minha querida. Viver o luto da própria vida é contraditório, é viver diariamente a própria morte – quando para viver a própria morte só se estando morto – é como experimentar delírios de brincar de Deus.

Pergunto-me, há quanto tempo venho suprimindo o meu nó vital? Respeitando os outros mais do que a mim. Por que aceitar pactuar com a vida de terceiros deixando de lado as necessidades da minha própria existência? “Respeite a você mais do que os outros. Respeite suas exigências.” – você me disse. Você tinha toda a razão, tudo isso teve um preço muito alto – e que quase me custou a própria vida. Não há maior solidão do que estar ausente de si.

Beijos,

Sua irmã de alma.

Entrelinhas



- Oi, como vai você?

(Vou do jeito que dá. Vou, aliás, do meu jeito que é o jeito possível. Sigo em frente pra não perder o ritmo, porque se parasse agora juro não saber onde acabaria. Provavelmente, me perderia por aí, mudava o curso e a direção para desaparecer na primeira esquina. Mas também não tenho certeza se você realmente se interessa. Você se interessa? Se eu disser o que sinto agora, de verdade, na lata, na surpresa, talvez o pegue deveras despreparado por estar quebrando o ritmo de um diálogo cotidiano tão previsível e normalmente raso, porque desarmaria de imediato a sua pergunta retórica, atropelando a chance de uma resposta corriqueira e evasiva, de você dizer que está tudo bem – mesmo que não esteja. “Oi, como vai você?” se tornou uma pergunta tão banal quanto “Será que chove?”.

Se, por exemplo, agora que você me olha com doçura e sorriso aberto esperando uma resposta para poder seguir em frente eu disser que não estou legal, você teria tempo de parar para me ouvir? Possivelmente, você também esteja pensando o mesmo a meu respeito e limite-se a dizer que está “na correria”. Todos estão na correria. O mundo anda cada vez mais avesso às nossas vontades e gira em velocidade frenética, deixando-nos neuróticos. O dia a dia nos escapa tão sorrateiro que é preferível e conveniente que deixemos a franqueza para outro dia, afinal, temos uma rotina pesada a ser cumprida.

Presumindo que eu realmente me interesse pela sua pergunta e você francamente se importe como me sinto, se eu falasse tudo o que me assola neste momento você desistiria de me saber verdadeiramente? Entendo o desconforto, tem dias que nem eu reparo como me sinto até alguém perguntar como estou. Sei lá, acho que essa pergunta deveria ser proibida em dia cinza. Dia cinza é um convite a olhar pra dentro e o que se esconde lá pode ser um perigo. Mas é mais perigoso não saber o que nos habita. Melhor evitar. Não quero desfazer esse seu sorriso. Só continue me olhando.

Você aí parado na minha frente, me encarando enquanto mantém o sorriso aceso e eu aqui pensando esse monte de bobagens, pensando inclusive que tenho pensado muito em você. Tanto que me distraio. Tanto que me perturbo. Tanto que me perco nesse riso branco. É como se não soubesse onde você termina para que eu comece. Distraio-me com seus cílios compridos que se beijam a cada fechar de olhos – já falei que acho um charme cílios longos e o quanto gosto deles?

Saudade da sua pele contra o sol. Imagino o sol nesse dia sem cor. Imagino como anda a sua rotina e como vai a sua nova vida. Será que você ainda prefere o lado esquerdo da cama e dorme com um travesseiro entre os joelhos? São os pensamentos que me prendem a você, são tantos que se enredam uns nos outros – diferente dos cílios que se beijam a cada fechar de olhos e se desprendem suaves. Me olha, mas não assim, por que não saiu andando, me ignorou, não fechou a cara, atravessou a rua ao me ver? Não me dê todo esse tempo para responder o que nem eu sei direito. “Será que chove?” resolveria metade dessa angústia. Eu poderia não responder nada e continuar só te observando. Seu silêncio de espera é quase um pedido para que eu fique. E eu já não sei como ficamos nós).

- Vou bem, e você?


O Homem Ideal


Esqueça os padrões de beleza e de comportamento. Os traços simétricos. O corpo bem definido. Os músculos marcados. O salário polpudo. A distinção nas maneiras. O homem ideal está longe de ser o cara perfeito.
O imaginário feminino é gentil ao traçar o perfil de homem ideal. Porque queremos alguém possível. Desejamos não alguém isento de defeitos, mas um cara de verdade – que caiba em toda a extensão da palavra. Embora gosto se discuta, estereótipos servem apenas para alimentar a ideia equivocada de que as pessoas se repetem em grupos e que permanecem iguais ao longo da vida.
Beleza é importante, mas não é a ela que nos detemos. Também somos seres visuais e apreciamos quem se cuide, gostamos de ombros largos, cobiçamos braços fortes, coxas generosas, uma bunda legal. Mas costumam ser detalhes mais sutis que captam e prendem a nossa atenção: o cabelo desalinhado, a barba por fazer, o jeito que sorri, a forma com que nos olha, o desenho da boca. Essas minúcias que, uma a uma, vão compondo um ser em sua totalidade.
Malhar o cérebro, por exemplo, é tão ou mais importante do que exercitar o peitoral na academia. Admiramos os homens inteligentes e respeitamos os espertos. Que fique claro, no entanto, que dispensamos os espertinhos e queremos distância dos espertalhões. O homem ideal sabe que caráter depois que desvia da rota custa a retomar o caminho de volta e por isso, não vacila.
Ele sabe como lidar com o humor feminino e seu astral é um convite ao riso. Conserva a meninice independente da idade. Compreende que TPM é capaz de nos deixar transtornadas, mas não leva o resultado das alterações hormonais tão a sério – porque além de conhecer, respeita a natureza feminina.
O homem ideal nutre uma paixão inexplicável. Todos os caras por quem me apaixonei tinham gostos e hobbies que os tornavam fascinantes. De cinema polonês a gastronomia. De arte barroca a skate, quadrinhos, música, livro, surf, games. O prazer e tesão que sentiam dava gosto e talvez o fetiche estivesse exatamente na paixão que alimentavam. Pessoas que se interessam tornam-se naturalmente interessantes. São mais vibrantes. É gente que usa a criatividade para se reinventar.
O homem ideal é atento e sabe quando queremos apenas que nos ouça e quando estamos precisando de um conselho. Devolvem chateações e resmungos com inusitados abraços de urso ou qualquer atitude besta – porque compreende que é mais frágil quem levanta a voz. Ele não tem necessidades de impressionar a todo o momento porque confia no trabalho que fez até então – e são exatamente a sua segurança e franqueza que impressionam.
Ele não tem o menor problema em reconhecer a própria fragilidade, em confessar os medos, em dizer que sente saudades e que prefere mesmo dormir agarrado – mesmo que você não goste de dividir o travesseiro.
O homem ideal aceita dividir a conta para que você se sinta independente e oferece um jantar para que não esqueça gentilezas. Capta a hora de se aproximar e dar espaço. Aprendeu a cuidar de quem ama porque soube primeiro cuidar de si. E sabe que o amor soma ao ser dividido.
O homem ideal habita o imaginário feminino como alguém plenamente possível. Disposto a dividir, faz com que toda mulher se sinta confortável sendo quem é.
O homem ideal é alguém que cabe exatamente no nosso mundo – e faltando espaço, a gente ajusta. É alguém que nos lembra que mesmo imperfeitas podemos ser também a mulher ideal para alguém.

Crônica especial para o MeuBairro: http://tinyurl.com/nhqa3kl

Antes Que o Amor Acabe


Amar exige cuidado, requer atenção. Muito além do gostar, o cuidado perante o amor surge também por sabê-lo falível. Não existem contratos ou juras que o torne eterno. Inexiste controle, segurança, prazo de validade. Num vacilo, mero descuido, a qualquer hora, em qualquer esquina o amor é capaz de pedir as contas e solicitar pagamento à vista, embora a dor venha parcelada e nem sempre chegue até nós em suaves prestações.

É como a vida. A certeza da morte treina a coragem. A possibilidade da perda ensina a humildade. Assim como é imprescindível viver como quem sabe que um dia irá morrer, é importante amar contando com o risco de que o sentimento possa acabar, o risco  serve de norte para nosso comportamento.

Antes que o amor acabe, lembre de falar para ela o tanto que a sua presença significa a você, diga como o seu sorriso ilumina seus dias tristes e o quanto a sua risada é capaz de preencher qualquer solidão. Fala pra ela sobre o seu cheiro, a maciez da pele contra a sua, da textura dos lábios, a leveza da alegria. Vale contar também o jeito que você ficou depois que a conheceu, confesse o medo de perdê-la, talvez ela se sinta mais amada.

Antes que o amor acabe, torço para que diga a ele o quanto gosta quando acaricia seu rosto formando conchas com as mãos, que adora e fica satisfeita quando ele a escuta com atenção. Fala do frio na barriga que sente toda vez que ele se aproxima e de como  suas pernas tremeram a primeira vez que provou do seu beijo. Ele vai saber-se especial e é só isso o que importa – ou tudo isso.

Antes que o amor acabe, ofereça sua cumplicidade diária como presente, seu peito como travesseiro, seu abraço como casaco, disponha parte da sua vida para ser compartilhada, diga o quanto se sente vivo por estarem próximos. Não espere pelo fim  para lastimar o que deixou de dizer ou viver junto a ela ou experimentar com ele. Mesmo que o amor não acabe, a vida cedo ou tarde termina. A consciência da finitude é capaz de intensificar nossas experiências.

Especial para MeuBairro: http://ow.ly/ouxei

 
A CRONISTA © 2013 | Gabriela Gomes. Todos os direitos reservados.