MISOGINIA - Parte I

Quando publiquei o texto "5 Tipos de Homem para Esquecer" - crônica que brinca com perfis masculinos que possivelmente darão dores de cabeça para uma relação, citei ao final - então de forma séria, o misógino.

A partir desta publicação, diversas mulheres entraram em contato comigo relatando experiências afetivas conturbadas e destrutivas. Possivelmente, algumas com a ativa e opressora participação de um misógino.

Motivada por esses apelos e pedidos reais de ajuda, fui atrás de respostas mais profundas, trazendo comigo a curiosidade habitual sobre o comportamento humano e laços afetivos. Ou como as coisas funcionam quando não funcionam.

O texto que segue, foi escrito após longa pesquisa e conversas com médicos psiquiatras, numa tentativa de elucidar e convidar todos para a discussão. Eu prefiro sempre pensar que conversando a gente se entende.



Pesquisas apontam que "a cada uma hora e meia, uma mulher morre no Brasil pelo simples fato de ser mulher." São 15 vítimas por dia e cerca de 5.600 ao ano - os números são de setembro de 2013, levantados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). 

EPÍGRAFE


E não viveram felizes para sempre.

O INÍCIO DA HISTÓRIA


Tá tudo lindo. O coração anda num pique danado. Pelo menos, aparentemente tudo está bem. Super bem aliás - e obrigada por perguntar. Uma nova história, um parceiro que você ama, novidades, fôlego renovado, vida em movimento, gentilezas e aquele pensamento frequente: "acho que encontrei o cara certo".

Após certo tempo de relacionamento, as coisas começam a mudar. Não como acontece com a maioria das relações afetivas que ficam desgastadas naturalmente, mas mudam de forma abrupta e bastante negativa.

Como se da água para o vinho, como se num grande susto, o parceiro que tratava você com extrema cordialidade, educação de quem parece ter frequentado as melhores escolas e cursos de boas maneiras, míngua e começa então a revelar um comportamento avesso.

O homem amoroso sai de cena, deixando emergir um lado perverso - mais latente do que o normal - porque sim, todos temos as próprias sombras. O que era doce e aparentemente equilibrado mostra a verdadeira cara, confirmando que não passava de idealização o que fora vivido até então.

Insultos, maus-tratos, acessos de raiva, reclamações excessivas, críticas constantes e torturas psicológicas (e/ou físicas) tomam conta do cenário que gradualmente torna-se devastador. A primeira reação (pois é difícil agir ao não saber o que está acontecendo) é a mulher duvidar de si - nada pode ser mais triste. Ficando desolada, perdida, confusa, sem entender onde foi parar o homem pelo qual se apaixonou.

Existe um sentimento latente de culpa. Um sentir-se inadequada e uma verdadeira opressão pela mudança brusca de comportamento do parceiro, pela relação e situação que se instala. O que parece ser coisa da nossa cabeça está sim, acontecendo - mesmo que seja mais simples fechar os olhos ou olhar para o lado. Perguntas como: "O que está acontecendo comigo?", "O que está acontecendo com ele?", "O que fiz para ser destratada assim?", "Ele não me ama mais.", "Eu devo ter pedido por isso mesmo!" são maneiras de pensar frequentes nesses casos e questionamentos de uma mulher com a autoestima já devastada.

Do outro lado, um homem agressivo, opressor e dissimulado começa a mostrar toda sua violência. O cotidiano vira um terror psicológico e são crescentes as ameaçam à integridade física e moral da vítima. (uma vítima real, diga-se por certo)

Eis a Misoginia. Um assunto extremamente sério, complexo e profundamente delicado. Casos que acontecem a perder de vista com mulheres no mundo todo e por isso mesmo merece ser revelada e discutida abertamente, sem preconceitos, sem amarras, com total liberdade de pensamento - porque de aprisionador já basta a relação. 





Era você



Você foi o melhor que a vida me trouxe. Injeção de adrenalina rasgando as veias, deixando o meu corpo teso e os pelos em riste. A alma em estado de alerta. O reflexo do espelho, o branco dos dentes, a leveza do travesseiro onde repousavam meus cabelos úmidos depois do sexo.

Foi você. Era você. Sempre. Coisa de outra vida - se houvesse alguma explicação para o encontro. A melhor loucura forjada pelo destino, se destino existisse. Como graça do acaso, éramos peças desencontradas de um mesmo jogo não aprendido na infância, que subitamente se uniam algum tempo depois.

O melhor - dizia exultante, com o riso fácil, franco e aberto. Era você até quando estive sozinha. Mesmo sabendo que peças unidas nem sempre são peças que se encaixam como tomadas macho-fêmea, embora a voltagem favorável.

Era você até quando fui me juntando às migalhas. Mas não saberia dizer como ocorreu. A passos miúdos, os pés que se acompanharam lado a lado, seguiram em direções opostas. À época, nunca soube onde guardar a saudade a não ser dos olhos pra fora. Dos olhos pra fora choramos as mesmas lágrimas salgadas, lambidas e recolhidas pelos cílios sobre a pele quente.

Fui então me distraindo com os próprios pés, com os calos, com os grãos de areia, as ondas lânguidas deitando à terra, com o vento soprando gentilezas enquanto eu o atravessava sem mais me cortar. Me distraí até mesmo com os passos que ficavam pelo caminho. Olhava para trás para ver se andava bonito. Embora sóbrios, é inevitável não ensaiarmos um andar bêbado diante do acaso.

Não combinei comigo, mas me distraí com a vida e me peguei outra vez ocupada de mim. E eu já não sabia onde você estava. Segui ocupada em acordar minha alegria, reinventando meu pequeno espaço neste mundo feito de ar, terra, sol, calos, andares distraídos e amores quebrados.

Certas coisas precisam mesmo ser extintas de nós. Sem movimentos bruscos e violência. Uma hora chega a vida com sua delicadeza e vai oferecendo a mão, abrindo novos espaços, enxugando nossos olhos e esbarrando outros corpos contra o nosso.

Eu não sei dizer ao certo quando, mas naturalmente, você foi desacontecendo em mim. Foi você. Era você. Sempre. Até não ser mais.

Gabriela Gomes

O que fica depois que o amor acaba



A relação terminou. Vocês não estão mais juntos. O sentimento minguou e o fim foi decretado. Além do nome de batismo, agora se referem um ao outro com impropérios ou palavras acompanhadas do prefixo ex junto a um bom hífen – que é pra manter a devida distância: ex-namorado, ex-mulher, ex-amor, ex-homem da minha vida, aquela cretina!

O amor depois que acaba costuma deixar um enorme vazio dentro da gente. Um buraco tão profundo que se alguém pudesse gritar em nosso peito, faria eco. A primeira instância, somos arremessados contra uma realidade assustadora. Um desconforto vai se instalando e a atmosfera diária se torna mais densa, até mesmo a respiração fica mais pesada.

Sorrateiro, o vazio que nos habita acaba fixando residência e dividindo morada conosco. Passeia pela casa cômodo por cômodo, deita junto na cama, senta para o café, divide a leitura do jornal, segura os prendedores enquanto estendemos as roupas no varal e nos acompanha nesta solidão diária, como se estivéssemos à mercê da sombra da própria alma.

Dá medo encarar o espelho logo que o amor acaba. É como se os olhos não pudessem evitar a pergunta: “e agora?” Mesmo que tudo tenha ficado numa boa, mesmo que tenha sobrado afeto, é um futuro diferente que se apresenta. Impossível não chorar. A gente até duvida: “esse sujeito abatido refletido aí sou eu?” Não nos reconhecemos com o semblante assustado, os lábios tristes, o olhar longe, as unhas roídas.

Depois que o amor acaba ficamos nós destruídos, como se tivéssemos recém saído de uma longa e árdua batalha. Exaustos, doídos, em frangalhos. Perdemos parte da referência, precisamos reconstruir a própria identidade, é comum que estejamos um pouco bagunçados. E daí até o luto chegar ao fim não há como pular etapas.

Fica um silêncio irreparável, ensurdecedor que grita verdades que não queremos ou ainda não estamos preparados para ouvir. Fica a incerteza e a tristeza de não ter dado certo. A mágoa. A frustração. O trauma. O desatino. O alívio. Ficam dois adultos com o ego ferido. Sobra o medo de que não voltemos a amar tão logo, e castiga a fantasia de que tenhamos gastado todo nosso amor com uma só pessoa. Ficamos secos de afeto.

Depois que o amor acaba ficam as músicas, e leva tempo para fazer as pazes com aquela canção que foi do casal. Ficam os presentes recebidos escondidos em um canto pouco visitado do roupeiro. Ficam diversos cabides órfãos dos vestidos dela, prateleiras viúvas das roupas dele. Ficamos nós emoldurados em várias fotos dentro de uma caixa de sapatos esquecida numa gaveta. Lembranças de viagens, datas comemorativas, momentos únicos. As cartas trocadas e escritas de próprio punho também vão parar no arquivo morto.

Fica uma saudade disfarçada de esperança. Resta uma tristeza disfarçada de raiva. E a gente não consegue disfarçar que anda perdido. Alterna-se uma vontade de não fazer absolutamente nada, para logo surgir uma urgência eufórica de sair pra rua, ganhar o mundo, beijar várias bocas, experimentar novas peles para voltar a sentir alguma coisa e ter certeza de que não se sente mais nada pelo outro – o que também pode ser explicado pelo medo de silenciar para não se confrontar com os próprios pensamentos. Você sabe que a dor irá acompanhá-lo aonde quer que esteja.

Depois que o amor acaba fica uma violência velada que praticamos constantemente contra a gente, imaginando se ele já está refeito, inteiro, se ela anda mesmo feliz. Se já encontrou alguém que mereça ocupar o lugar que fora seu, se usará as mesmas frases de efeito que funcionaram com você. No fundo, é só o medo de ser esquecido.

Depois que o amor acaba fica a dúvida do que poderia ter sido se fosse diferente. Fica uma história pela metade ou um destino que se cumpriu. Um livre arbítrio concretizado, uma decisão do coração acatada pela razão ou vice-versa. Fica a impossibilidade de colar pedacinho por pedacinho do que foi quebrado. Ficam lembranças que vão surgindo e vamos montando feito quebra-cabeça para completar o todo. Mas faltam peças, muitas histórias terminam incompletas.

Independente de como o amor acaba, fica a lição da experiência vivida, onde cada um deu o que podia, ou queria. Não são todos que se sentem confortáveis e seguros para se entregar. Bom mesmo é quando fica um enorme carinho por quem experimentamos um sentimento tão intenso, embora nem sempre isso aconteça.

Quando o amor acaba, acaba também a fantasia de que pudéssemos ser duas metades. Somos, na verdade, dois inteiros que se complementaram. A esperança então troca de roupa e nasce o desejo genuíno de voltarmos a amar outra vez. No tempo necessário. Não tão breve, mas que também não demore muito. E que seja alguém que valha a pena investir energia, porque recomeçar demanda disposição.

Depois que o amor acaba fica uma lembrança a ser revisitada ou alguém a ser esquecido. Pode acontecer ainda que o desgaste tenha surgido antes que o sentimento tivesse se esgotado. Mas, invariavelmente, depois que o amor acaba ficamos sempre nós, que passamos a ser tudo o que temos – e é do lado de quem devemos estar.

Gabriela Gomes

Você diz que não sabe dançar


Você diz que não sabe dançar. Discordo. Nenhuma prova pode ser maior do que a hora do sexo. Os corpos dançando entre os lençóis ao som da respiração ofegante. Aliás, esqueça os lençóis.

Você diz que não sabe dançar, mas conduz o meu corpo como ninguém. A gentileza das mãos a coordenar o ritmo da cintura, os dedos mergulhados nos cabelos, a língua úmida e quente lambendo o sal da pele, as pernas abraçando os quadris - pedindo para ficar um pouco mais ali. A sofreguidão do prazer que não cessa.

Quando estou no seu corpo não importa a temperatura lá fora. Pois no meu corpo, seu corpo faz verão. Me perco na estranheza da noite para me encontrar nos detalhes do seu dia. E como adoro os seus detalhes.

Quando estou no seu corpo não me apresso. Tranco a porta e jogo fora a chave. Só concordo em fazer o caminho de volta se for para começar tudo outra vez. Porque no seu corpo o meu corpo fica completo.

Quando estou no seu corpo me sinto inteira. Como se o prazer do encaixe e o conchego do abraço me devolvessem a mim. Tal qual o gozo de quem retorna pra casa depois de um dia complicado. Ou como múltiplos orgasmos em um único gozo.

Quando estou no seu corpo perco a noção do tempo, porque nesse instante o prazer é tudo que tenho. Não existe o tédio que se entretém com o teto, porque os seus olhos estão sobre mim, como janelas que me fazem enxergar o céu.

Quando estou no seu corpo tudo fica bem. É como se minha alma estivesse em casa. Porque o seu corpo é o lugar para onde eu sempre quero voltar.

Gabriela Gomes


Dia da Mulher

O Dia Internacional da Mulher foi celebrado por aqui, em evento sobre o papel feminino no séc XXI, na Escola da Cerveja, em Porto Alegre-RS. O lugar não poderia ser mais oportuno para brindarmos a ocasião e simbolizar a transformação da nossa sociedade. Vivam os novos tempos!


Eu, Jacqueline Naylah, Renata Maria e Jacqueline Custódio.

Falei sobre um dos temas que eu mais gosto - as relações humanas. Ministrei a palestra "RELACIONAMENTOS: desatando os nós e criando laços afetivos." Um desafio e tanto. E foi lindo! Sim, porque relacionar-se também é treino e faz um bem danado.




Batemos um papo sobre nossa fragilidade e esse nó amarrado bem no meio do sossego que são os relacionamentos na Pós-Modernidade, onde a velocidade em que vivemos (vivemos?) acaba interferindo na saúde das relações (quando não na nossa), dando a sensação crescente de que tudo está prestes a acabar - o que gera insegurança, medo e um mal-estar que às vezes fica difícil administrar.




Muita gente bacana compareceu ao evento. Além do público presente, teve Bauman, teve Clarice Lispector, teve Caio Fernando Abreu, teve Nando Reis e uma galera a fim de trocar experiências enriquecedoras.


Rolou o Pré-Lançamento da minha coleção "Alta Estima" de quadros colecionáveis. Quatro sortudas levaram os seus. Se você também gostou e quiser saber como adquirir o seu, escreva para mim: gabrielasgomes@gmail.com 


Quadros Colecionáveis - Coleção "Alta Estima"


Fiquei danada de feliz com o convite e pelo encontro. Coisa boa estar junto de pessoas receptivas e corajosas, abertas ao debate, discutindo suas inseguranças, expondo suas fragilidades, a fim de realmente melhorar a si. Que bom abraçar o outro - este estranho sobre o qual sabemos tão pouco e de certa forma, se parece tanto conosco.

Eu, Jacque Naylah, Elenice Telles, Renata e Jacque Custódio.

Agradeço o convite dos organizadores do Portal Meu Bairro e aos patrocinadores que fizeram acontecer. Posso dizer que estou plenamente Feliz, neste Dia Internacional da Mulher!




Um grande abraço em todas as mulheres!

Gabriela Gomes

[VÍDEO] A Felicidade Possível

É a vez da Felicidade. Se não a absoluta, a possível. O que dá pra espremer da laranja, o caldo que sobra do limão para a limonada. Tem Millôr Fernandes, tem Machado de Assis e tem eu, é claro. Se apertar o play, ter você nessa vai ser legal. E me deixar feliz, bem feliz!



Lembretes cotidianos



Felicidade não tem tempo de ser adiada. 
A vida só pede um abraço.
Mesmo em meio a entraves, 
lembre que a dor também ensina o prazer.

Gabriela Gomes

[VÍDEO] - Carta para Clarice Lispector

Clarice pede silêncio para ser ouvida. E uma conversa com ela deveria ser feita na delicadeza de um sussurro, na espontaneidade de um abraço, no perdão de quem não se leva a sério. Os barulhos da cidade embora parte do cenário, fazem com que eu quase alcance Clarice, que me escapa em sua totalidade, nos detalhes. Converso com ela para me aproximar de mim e se tiver alguma sorte, dialogar com você.

É à noite que as coisas acontecem por aqui. Mais um vídeo! O 2º de uma série que está se formando e não tem número exato para terminar. Dessa vez, uma carta que escrevi para Clarice Lispector. Já publicada aqui, mas agora com movimento, som, imagem. Sem edições, com todos os erros cabíveis e descabidos. Num cantinho do meu quarto, um passeio pela casa. Me acompanha nessa? Ah! Como as coisas são amadoras por aqui (de quem tá amando descobrir coisas novas) recomendo fortemente fones de ouvido.



[VÍDEO] Toda escrita é exorcismo e reza

NOVO CANAL NO YOUTUBE 

A vida é risco diário. E por me levar muitas vezes demasiadamente a sério, estabeleci este novo desafio pessoal de conversar com vocês através de som, imagem e movimento, com a despretensão que a linguagem do formato permite e oferece. Assim, convido vocês a conhecerem meu mais novo Canal no Youtube.

É uma maneira diferente de expressão - até então bastante nova pra mim e por isso, me sinto desafiada. Mais um jeito que encontrei para treinar a coragem, reinventar a própria vida, expressar o que penso e sinto, alargar fronteiras e estreitar os laços. 

Quero muito vocês comigo nessa! Me acompanham? É sempre uma grande alegria o encontro e a troca. Fiquem à vontade para comentar e me escreverem. É muito bom conhecer novas formas de ver e pensar o mundo. Me interessa o que vocês pensam. Vamos somar e dividir?





Beijos largos e muito felizes,

Gabriela Gomes

Carta para alguém que partiu



Se existe mesmo uma grande fenda por onde a luz adentra a terra trazendo e formando o dia, especialmente hoje ela está mais larga - pois faz sol.

Após afazeres matinais desimportantes, com a janela do quarto escancarada voltei até a cama e joguei o corpo sobre o lençol de cor semelhante ao céu e fiquei brincando de procurar teu rosto nas raras nuvens que boiavam no ar. Não encontrei. Ainda assim consegui sorrir.

Mas isso foi só depois de saber que hoje faz um ano. Ainda me pego estarrecida de como o inconsciente está sempre tentando nos dizer alguma coisa – por isso aprendi a não duvidar mais de mim e ficar atenta aos sinais. Vigiar os pensamentos, sonhos e separar as supostas fantasias.

A gente sabe muita coisa sem saber. Quer dizer, a gente simplesmente sabe porque os registros mais significativos permanecem impregnados pele adentro, emaranhados nos ossos, músculos, pulsantes nas veias, saltando no núcleo das células nervosas – digo eu que não entendo quase nada de biologia, genética, mas sei alguma coisa da vida.

Ainda ontem antes de dormir, já sonolenta, busquei o celular na cabeceira da cama para ver o calendário e a ordem dos dias, pois pensava em ti. Tua imagem me veio à lembrança. Confundi as datas, e já estava fazendo exato um ano da tua partida. Diferente da noite que antecedeu teu adeus, tive um sono pesado e profundo – embora de poucas horas. Esqueci de rezar, não lembrei do vô, não lembrei da vó. Não andava com ideias estranhas na cabeça. Nem sentia um medo inexplicável e sem nome.

Levou algum tempo, mas hoje já consigo lembrar de ti com serenidade. Falar da tua partida com discernimento, tranquilidade e com a empatia de quem sabe o quanto viver não é fácil. E que, às vezes, dói insuportavelmente. Mentira, muitas e demasiadas vezes dói irremediavelmente. Eu sei. E se ainda existe alguma ligação, tu sabe que sei.

Aqui é primavera e hoje faz um sol danado de bonito, aposto que ideia tua, né? Diferente da névoa cinzenta que cobria a cidade naquela segunda-feira que nunca esqueci. Paradoxalmente, às vezes parece mais e outras menos que um ano. Talvez o tempo ora congele, ora volte a correr. Não sei bem.
A saudade alterna de tamanho, mas a memória continua sempre fresca e viva.

Conversei com algumas pessoas que vivem com saudades tuas. Tu sabe de todas elas. Vamos então fazer um trato? Fala com o responsável aí de cima e pede para aumentar a fenda por onde a luz adentra a terra, quem sabe assim a gente tenha mais sol beijando a nossa pele, acariciando nossos corpos, aquecendo o coração. Independente disso, nossos olhos continuarão suados de saudades. 

Gabriela Gomes

Toda escrita é Exorcismo e Reza



Eu escrevo como quem reza baixinho para o primeiro santo que ouvir
e simpatizando com os meus pedidos atender alguma prece.

Escrevo para me desafiar. Testar minha resistência, calcular
quanto tempo aguento sem fôlego até o fim da próxima linha, frase, parágrafo, história. 

Eu escrevo para me vingar da realidade que me rouba o ar, soca a cara,
Contrai o estômago e me enoja dia após dia.

Escrevo como quem engole a última fatia de pão a seco na hora da fome
E busca do fundo da garganta o resto de saliva para deglutir a vida.

Se eu escrevo é para não estilhaçar os vidros e espelhos de casa.
Para não cortar os pulsos, expor as vísceras, assustar os cachorros.

Escrevo para não ser encontrada boiando sem vida com os pulmões
cheios d’água na calunga maior.

Escrevo para exercer minha onipotência e brincar de deus de
meus próprios personagens e pensar que posso estar enganando
a própria morte.

Se eu escrevo é para perder o medo das minhas entranhas, 

enxergar através das minhas sombras, para deixar meus rastros de violência
apenas em tinta. De papel.

Mesmo que tenha antes sangrado. Mesmo com cicatrizes expostas.
Mesmo que a dor seja latente. Mesmo que toda uma vida não cure.

Escrevo para ir deixando o peso no meio do caminho.

Para quem sabe você também comece a se sentir normal
compreendendo o seu instinto de bicho que vez em quando
mostra as garras afiadas.

Ou você também não se assusta com quem é?

Escrevo para saber até onde suportam saber sobre mim.
Conhecer quem sou de verdade. Acompanhar meus passos.

Escrevo pra me salvar. Para não desistir de quem fui me tornando.
E estou me tornando cada vez mais quem nasci.

Se você chegou até aqui, espero que renasça a cada dia
para salvar-se também.


Gabriela Gomes

A Generosidade do Amor



Para Cínthya Verri

Eu não desprezo mais o meu passado. Aprendi a perdoar minhas falhas – embora o constante desafio. Não que eu me goste por completo, mas consigo observar a mim com um olhar mais carinhoso e ter empatia pela minha própria história. Mesmo que seja torta, imperfeita, impensável, mas é tudo o que tenho e eis a minha realidade. Olhar meus olhos no espelho não é mais tão duro porque não é afronta, é apenas a pergunta “como você está hoje?”

Descobri na prática que posso criar novos jeitos de seguir em frente. A criatividade sempre esteve dentro de mim embora tenha precisado de ajuda para despertá-la. Desconfiava que ela me salvaria, sabia sem saber - você entende. Foi preciso a delicadeza de uma mão amiga para despertar. Assim como uma mãe adentra pé ante pé o quarto escuro para gentilmente acordar um filho. E Cínthya tem mãos delicadas.

Certa vez, ela confidenciou em tom de segredo: tudo bem ter ou não fé em Deus, contanto que jamais perca a fé em ti. Eu ri e quase me achei deus, embora soubesse mais ou menos o meu lugar. Os tropeços vão nos ajudando a desfazer da arrogância que construímos para nos proteger do que não tem escapatória. Ninguém sai ileso da vida. Melhor acordar todo dia com isso na cabeça do que não ter contato com a realidade. Todos que estão lendo estas palavras agora serão pegos de surpresa, mas não desavisados.

E eu só divido isto com vocês porque aprendi que o amor é generoso. Aprendi a gostar de verdade. Por mim e para mim. E sei que ela também sopra em tom de segredo esta frase na boca do ouvido de outros tantos. O amor não é ciumento.

Eu já quis ser Cínthya Verri. Eu já desejei fazer coisas apenas para orgulhá-la - como quem sinaliza “estou aprendendo com você porque também estou disposta a isso.” Hoje eu só quero ser o melhor que posso. A Gabriela Gomes, que também é Flôres (assim à moda antiga), que escreve para soltar a corda do pescoço, que aprendeu a rir das suas sombras e fazer arte com isso. Sem sobrepor a si, nem a ninguém. Hoje, converso comigo de igual para igual, sem verticalização hierárquica. Às vezes me escapa e eu observo. É inconstante e improviso direto - igual a vida.

Sei que não sou a única. As pessoas gostam e sacam logo de cara quem gosta de si. Quem se respeita e assume quem é. Quer dizer, gostam quando são bem resolvidas – e isso não é um autoelogio. É apenas se entregar e saber apreciar, torcer e vibrar pelo outro e com o outro.

Eu não posso falar por eles, mas respondo por mim. E sem pedir qualquer perdão pelo trocadilho, para a Cin eu sempre direi sim! Já que compactuamos da opinião de que viver é uma árdua e fodida batalha diária (ela sabe que gosto de usar palavrões – e tem coisas que só podem ser ditas com palavrões), vamos convidar nossas crianças interiores para a festa.

Feliz aniversário, minha querida amiga! Que sorte, que coincidência, que alegria ter te encontrado para, enfim, me encontrar. Obrigada por fazer com que eu me sinta tão bem acompanhada.

Com amor,

Gabi.

 
A Cronista © 2013 | Gabriela Gomes. Todos os direitos reservados.