Eu te vejo. Você me vê?


Quando eu digo que te vejo é por estar disposta a ajudar para que nenhuma de suas dores sejam invisíveis.  

Se somos próximos, você já deve ter ouvido de mim: não existe assunto proibido entre a gente. É um pacto com meus amigos mais íntimos. É o meu pacto de vida comigo.

Olhar pra dentro assusta mais do que olhar pra fora. E nós sabemos que o mundo anda de uma estranheza e tanto.

Eu já pedi, em meio a muita dor, àqueles que me deram a vida para não estar mais aqui. Mesmo ali, sabia que o verdadeiro pedido era outro: pai, mãe, eu preciso de vocês pertinho de mim. Ao menos nesse instante que eu não lembro direito como é que se caminha. Mas nunca esqueci que foram vocês que me ensinaram os primeiros passos.

Deve ser por isso que gosto de olhar para os meus pés. Cabeça baixa sou eu admirada da própria coragem. Sei o significado de cada centímetro da sola do sapato ou pele quente, descalça, tocando o chão. E chão é duro.

O coração é bússola que orienta a seguir em frente. Mesmo quando as ideias nos atrapalham, escute o coração. Desapegue do pensamento - ele nos engana, ele se engana. Esteja disposto a abraçar o que sente, sem preconceitos. O que a gente sente nunca está errado.

Se você caminha com a sensação de que sabe um montão de coisas sem saber, você está certo. Sabe porque intui. Mesmo que não entenda. Os sinais estão todos aí. Reconhece, mas ainda não teve o tempo da compreensão. Tem coisa que demora mesmo a assentar dentro da gente.

Se acha de que suas dores são pessoais e intransferíveis, você está certo. Se sente que embora suas, dá para dividi-las, está certo também. E lembra, eu já estive doente dos olhos. 

Tudo o que a gente divide vira eco no mundo. Faz teu coração ecoar, esteja ele inteiro ou ferido. Estar inteiro não é estar imune ou indiferente à dor. É antes o contrário - só podemos ser inteiros ao entender como se espatifa em pedacinhos. E depois vai lá e se junta. Tem sempre alguém disposto a agachar-se com você e devolver aquela partezinha sua.

A gente se protege muito mais quando se mostra ao outro. Nos salvamos bem mais quando respeitamos nossas esquisitices, aquela parte menos bonita, nossas violências internas. Não existe sentimento proibido.

Aprendi com muita gente que aprendeu antes de mim: a gente está nesse mundo é pra se acompanhar. E eu não tenho mais medo ou vergonha de pedir a mão. Quero todas que se dispuserem com afeto. Não é sobre força que estamos falando. Ser o mais sensível não significa ser o mais frágil. Apenas ser o mais disposto a ver o mundo e as pessoas como elas são. Como elas estão. 

Eu te vejo. Você se vê?

E quando eu digo que te vejo - e peço que se veja, é por estar disposta a ajudar para que nenhuma de suas belezas tornem-se invisíveis a você. Insensíveis a você.

Precisamos, mais do que nunca, respeitar a dor nossa e a do outro. Tem gente demais desistindo. De tudo. De si, da vida, do mundo. E isso é muito sério. Tem muita gente cansada demais e que, sozinha, se vê em desespero. Uma gente que desista da própria vida, pra mim, é multidão.

Eu sigo te vendo Você me vê?

Eu estou aqui. E não existe assunto proibido entre a gente. O que se sente nunca está errado. Mas sei que podemos estar enganados em relação ao que escolhemos fazer com aquilo que sentimos.

3 comentários:

  1. Se eu já gostei de sua discrição, não poderia esperar menos deste texto. Amei. E acho total verdade!

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    1. Oi, Isabela! Eu fico, realmente, muito contente por me leres. Por me veres. :) Obrigada pela leitura, pelo teu carinho e comentário. Um grande beijo.

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