Como escritores estão ganhando a vida através da Web

Entrevista concedida a Tiago Lobao para matéria sobre Escritores 2.0 - Revista UP de São Paulo.

1. Primeiro, gostaria de saber um pouco sobre seu currículo. Se já teve outros prêmios ou algum livro publicado e essas coisas. Pra gente falar sobre sua história e situar o leitor a seu respeito.

Eu comecei a escrever ainda bastante menina. Na época, com caneta e papel - não que isso ainda não role, mas com o advento da Web parece meio distante. Na época, não contava com o auxílio da Internet para divulgar meus escritos. Estava recém engatinhando nos textos, pegando o jeito, flertando com as letras, junto a uma necessidade que ainda permanece: de externar ideias, sentimentos, compartilhar visões, questionamentos em comum sobre a vida, provocar as pessoas. Literatura é experimento. Todo texto representa uma nova oportunidade, uma segunda chance. É uma novidade - inclusive para o escritor. E o desafio é justamente se renovar, estar pronto para a próxima. Brincar com estilos, passear por diversos gêneros. Reinventar-se.

Sou formada há pouco mais de 2 anos em Publicidade e Propaganda pela ESPM-RS (Escola Superior de Propaganda e Marketing). Trabalho na área de criação como redatora publicitária on e offline. E já que falamos de Web 2.0, administro o Twitter da franquia gaúcha de uma das maiores redes de pizzaria no mundo. Participei de algumas oficinas literárias em Porto Alegre – onde resido atualmente, com o jornalista, poeta e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar (vencedor do prêmio Jabuti de 2009 com o livro Canalha! – Ed. Bertrand Brasil).

Além do Prêmio Volta ao Mundo Negresco, que venci a categoria blog (veja bem, quem deu a tão sonhada volta ao mundo foi outro conterrâneo que ganhou na categoria Anúncio Publicitário), meu blog A Cronista ficou entre os 3 melhores blogs pessoais de Cultura na disputa nacional do Prêmio Top Blog Brasil. Até então, nenhum livro publicado.

2. A sua relação com a internet é antiga. Como e quando você percebeu o poder de promover seu próprio trabalho, se aproximar e fidelizar o público através da rede? Que ferramentas você tem usado pra isso? E qual é a sua opinião sobre essa nova relação, muito mais próxima entre escritores e o público que a internet possibilita?

Estou na rede há pelo menos 12 anos. Gerando conteúdo e publicando meu trabalho, apenas 2. Mesmo antes de surgir o interesse de publicar, já compreendia parte da revolução que a Internet representava. Quando os blogs nasceram e ainda nem eram pop no Brasil, vi a oportunidade de criar o meu e ali divulgar e compartilhar meus textos. Começou como brincadeira e quando vi que as pessoas liam, decidi levar a coisa mais a sério. A fidelização de leitores não foi algo pensado, entendo mais como consequência. Do outro lado da tela, tinha alguém que se identificava. Até porque minha intenção primeira era saber se as pessoas curtiriam ou não. Ainda tinha dúvidas se aquilo valeria para outra pessoa além de mim. Considero esta aproximação entre autor-leitor importante. Afinal, o escritor existe a partir dos leitores. A não ser que alguém se contente em fazer sucesso com as traças e os cupins.

Utilizo Blog para crônicas, contos, cenas, poesia (http://acronista.blogspot.com); Twitter (twitter.com/gabisouzagomes) para escrever microcontos, falar com os amigos, brincar despretensiosamente, registrando meus insights de até 140 caracteres. E o mais engraçado é que, ultimamente, meus pensamentos surgem fracionados e de tweet em tweet vou amarrando minhas ideias (risos). Utilizando ainda, para seguir pessoas que considero interessantes: escritores, publicitários, veículos de comunicação, músicos, etc.

A força destas ferramentas, quando bem exploradas é tanta e tão verdadeira que o Carpinejar, por exemplo, estará lançando ainda este ano o 1º livro do Brasil criado a partir do Twitter. Isto é, levará para o livro de papel o que primeiro passou pela internet. Mais ou menos o caminho inverso da história dele na literatura, que até onde sei, começou de maneira tradicional: participando de concursos literários, organizando livros para editais, encaminhando seus textos para editoras.

No meu caso, a Internet foi a legítima prova dos 9, ou ainda uma (por que não?) pesquisa de mercado. O feedback positivo do público vai aos poucos levando a crer que é possível tentar um livro de papel, das formas tradicionais. As pessoas vão pedindo e você se depara com novas possibilidades.


3. Você é ganhadora do Prêmio de Criatividade Jovem da Editora Abril em parceria com a Nestlé, qual foi o impacto desse prêmio na sua carreira e planos como escritora? E qual foi o papel da internet para que você conseguisse esse prêmio?


Esse prêmio serviu para várias coisas. Adquirir confiança de que é possível criar algo bacana com aceitação das pessoas – logo meus planos como escritora se ampliaram. Foi um marco ente a escrita descompromissada e a literatura. Em estar escrevendo com um certo compromisso. Foi quando deixei de escrever apenas para mim e passei a escrever pensando no leitor. Por se tratar de um prêmio nacional, que levava o nome de uma empresa de renome e tinha o apoio de uma das maiores editoras do Brasil, deu com toda a certeza, uma certa visibilidade para o meu trabalho. Na época do prêmio, meu blog chegou a ter 190 visitas/dia – o que para um blog de literatura de alguém desconhecido, que as pessoas sequer sabem de onde saiu – é incrível. Na carreira de publicitária, serviu para engordar o currículo e contar boas histórias. Como trabalho com redação, faz sim uma diferença estar mergulhada no universo da escrita. Embora se utilizem de técnicas diferentes de criação. A votação do Prêmio, por exemplo, era uma diversão só, a maioria feita via Internet. Enviava pedidos aos amigos, amigos de amigos, via e-mail, Orkut, MSN e no próprio blog. O legal é que a internet reverbera e espalha rapidamente a informação. Basta ter um pouco de perspicácia e disciplina para usá-la. Coerência também é importante.

4. Você costuma participar de concursos literários? Eles ainda são peças importantes na construção de uma vida como escritor?

Nunca participei de concursos literários. Mas é um bom pretexto para criar e ir organizando um material bacana. Acho discutível. Até porque temos os prêmios mais tradicionais e uma infinidade de menos expressivos, lançados na própria web – por apreciadores de prêmios literários. Acho que até podem ser importantes, mas não decisivos na carreira de um escritor. De maneiras inversas pode servir de estímulo ou frustração - caso você só vá atrás disso. Prefiro leitores a prêmios – embora envaideçam e deem certo respaldo, não significam tudo. Gosto de pensá-los como incentivo.

5. E além dos blogs, você publica seus trabalhos em sites de escritores como o Garganta da Serpente ou o Recanto das Letras?


Publiquei apenas uma vez no Garganta. O Recanto das Letras embora conheça, nunca utilizei. Gosto bastante do Portal Literal. Tento concentrar meu trabalho mais no blog mesmo – que é o meu próprio veículo de comunicação.

6. Tem planos de publicar livros em papel? Já tem algum escrito, ainda engavetado ou publicado em formato digital?

A vontade existe há bastante tempo. E estou aos poucos caminhando para isso. Não quero deixar que a ansiedade, bastante normal no início acabe atrapalhando. Não quero pular etapas. Quero seguir sem pressa. Apesar da maturidade vir da experiência, sinto que ainda não é a hora. Mas ela está bastante próxima. Tenho alguns projetos iniciados, mas nenhum concluído ou definitivo. O blog é também um grande livro virtual, e cada ajuste ganha cara de nova edição. Que bom poder voltar atrás. Repensar uma frase ou ideia. Discordar de você próprio. Reconstruir. E os blogs possibilitam isso.

7. Essa explosão de conteúdo online e as maneiras quase infinitas e segmentadas de divulgá-lo tem causado um maior interesse das pessoas em ler, tanto online quanto livros de papel? Independente da qualidade do conteúdo, as pessoas estão lendo mais, sim. Quem não tem grana pra comprar uma revista, pode acessá-la pela Internet. Até mesmo alguns autores de livros de papel, que começaram de maneira tradicional, vêm disponibilizando versão online de suas obras. Compreenderam as mudanças de época e aproveitam as possibilidades. Se é oportunidade, por que não tentar? As pessoas também estão escrevendo mais. Basta citarmos esses programas de conversação instantânea, utilizados como ferramenta de entretenimento e até mesmo de trabalho.

8. Você ainda acha o livro de papel um elemento essencial na carreira de um escritor, ou já é possível ser um escritor 100% online? Já ouvi discussões sobre literatura de web. Não consigo fazer esta distinção. Ou é literatura ou não é. Simples assim. Acho que o livro de papel é o sonho de todo autor. Devem ter exceções, como tudo na vida. Mas livro de papel carrega uma simbologia bastante forte – ainda mais em uma era virtual que carecemos das coisas tangíveis. Entendo o livro de papel como um rito de passagem, publiquei em papel? Ok. Agora posso me considerar um escritor. As pessoas me verão como escritor. Penso que as livrarias ainda têm vida longa, embora devam disponibilizar produtos online para acompanhar o contexto da nossa época.

9. Diga, o que você vê para o futuro dos novos e antigos escritores, e porque não o dos leitores, considerando todas essas maneiras de interação do público com a obra literária.

Vejo os antigos escritores migrando para a plataforma online. E alguns dos novos escritores, fazendo o caminho inverso: a partir da plataforma online migrando para os livros de papel. No mais, todos acabarão se encontrando no meio do caminho. E o leitor só tem a ganhar com isso. Terá uma literatura full line e full time.

10. Quais são os seus projetos em andamento e planos para o futuro na carreira literária?

Sair em algum momento da plataforma online para o livro de papel. E poder contar com o selo de uma editora para isto. A princípio, um livro de crônicas e outro de microcontos em processo de gestação.

Para ver a matéria completa, com muita gente bacana acesse:

Você também pode baixar o PDF da revista completa na www.revistaup.com

7 comentários:

  1. Interessante viu!
    Vou ler quando tiver um tempinho!

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  2. Sucesso pra vc, que tenha um ótimo caminho como cronista!!

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  3. Gostei muito que você publicou a entrevista! Tinha tanta coisa legal que você disse que realmente merecia ser publicada.
    Coloquei um link pra esse post lá no meu blog tb.
    Um grande abraço e muito sucesso!

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  4. Dá-lha dá-lhe.
    Muito foda.
    Querida parceira de letras.

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  5. Olá... fazia tempo que não passava por aqui ler suas histórias...
    Parabéns pelo prêmio!!!

    Sucesso!!!

    Realmente a internet possibilita muito nos avanços de hj, como por exemplo, o contato entre escritor e leitor, a internet ajuda a promover aquilo que temos de melhor... Hoje vemos isso atraves das web celebridades que surgem a todo instante...

    Estou em novo endereço agora, me mudei para o wordpress.

    Beijos e sucesso!!!

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  6. Como tudo que você faz já deu pra ver que é sucesso total.
    li e reli sua entrevista :
    Os GAÚCHOS estão bem representados por vogê como CRONISTA .
    um abraço !

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  7. Como é que você consegue estar sempre alerta ? Nasceu para ser famosa !Parabéns por todos os prêmios que já ganhou merecidamente
    Bejuxx

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