Tchau, querida!

Desconfio: tenho certa propensão ao voyeurismo. Uma excitação quase sexual me acomete ao observar as pessoas fazendo o que quer que seja. Binóculos são meros brinquedos a estimular minha curiosidade. Os locais públicos é que são meus verdadeiros deleites.

Assim é na fila do cinema, onde observo casais ansiosos pelo início da sessão, as mãos dadas, o saquinho de pipoca, o refrigerante, as balas de goma. Reparo até, se o espectador já não está passado para o tipo de filme que pretende assistir. O mesmo acontece no supermercado, onde o olho espicha para os produtos do carrinho ao lado. Ainda que tal recurso favoreça a marca a ser comprada – fazendo do gosto alheio o termômetro de qualidade -, minha curiosidade continua sendo a maior beneficiada.

E assim foi no restaurante da praia, em que estive com uma turma de amigos para almoçar. Entre hambúrgueres e batatas frita, meu olhar acompanhava as pessoas que entravam e saiam apressadas, fugindo da chuva que caia lá fora. Lembro mais dos sapatos que dos rostos. Mais dos pedidos que das mãos. Mas daquela garota que antes de sair se despediu de mim com um irônico e sonoro “tchau, querida!”, não esquecerei.

Antes de me dar conta de que era comigo, aguardei pelo som que retornaria aquele tchau. Não encontrando, entendi que aquela despedida era mesmo endereçada a mim. Como assim: “Tchau, querida”? Busquei na memória a mesa onde ela esteve sentada. Retrocedi um pouco e logo lembrava a criança e a senhora de cara amarrada que a acompanhavam. Já a garota, eu não pude ver antes, até onde lembro se manteve de costas.

Como tinha certeza de que não nos conhecíamos e de que não se tratava de nenhum dos meus desafetos, tracei algumas hipóteses do que teria feito a ela. Como alguém que eu não estava olhando se sentia incomodada comigo? Será que se deu conta de que antipatizei com a cara amarrada da senhora que estava junto dela? Talvez tenha se sentido criticada quando reparei que se arrumava para ir embora. É bem possível que tenha me achado uma completa descarada por estar observando particularidades alheias.

Quem sabe tenha tomado as dores por alguém. Tendo dúvidas se realmente não a tinha observado antes com maior atenção, comecei a acreditar que a vi jogando o cabelo loiro para o lado. Um tanto mais, e já podia assisti-la me dando as costas - como quem pretende delimitar território para se preservar. Em contrapartida, me enchi de certezas de que havia desfilado mais de uma vez entre as mesas, insistindo para ser vista. Entre déjà vu e realidade, eu já não sabia o que era coisa da minha cabeça e o que tinha, de fato, acontecido.

No fundo, ficou incomodada. Se meus olhos a tivessem elogiado não estaria tão transtornada. Avaliara sua roupa, sua forma física sem me dar conta? Pisquei um só olho em vez dos dois? Meu olhar foi insistente? Ela me confundiu? Eu a deixei confusa?

“Tchau, querida!” veio acompanhado de sorvete. Não na minha testa, mas em suas mãos. No fundo, desconfio que ela procurava ser tão devorada quanto aquela sobremesa. A avidez dos meus olhos em busca de novidades deve ter lhe atiçado a gula. E por maior que fosse sua vontade de ser percebida, nenhuma fome seria suficiente para devorá-la. Assim como um só voyuer pode ser muito pouco para saciar um exibicionista.


9 comentários:

  1. uaal! ameii o texto queriida :D
    beiijos

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  2. bah... que forte isso, fiquei abalado!

    muito bem esquematizado!

    um adeus acompanhado por sorvete fica forte e doce!

    bjs

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  3. Tb me pego observando as pessoas. E as vezes os observados me pegam! hehe

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  4. oi gabi. adorei o conto!
    já está no novas visões, né?
    ótimo!
    beijos

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  5. Isso me lembra o meu lado voyeur se observar e ter um tesao imenso de saber o que é que tem nas casas das pessoas.
    Muito bom, parabéns.

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  6. nem me fala fico cuidando os outros direto, quando perdebem as vezes fico até com vergonha, mas eh mais forte que eu :) parabéns pelo blog

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  7. Leleti00:21

    Adorei a crônica. Parabéns!

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  8. Deu vontade de tomar um sorvete, e depois achar um buraco na fechadura por aí. ;P

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  9. Com certeza que ela ficou com raiva porque achou que você tava olhando demais o que não era da sua conta.

    Eu tenho essa mania também de obserar as coisas e as pessoas. E até papai insiste: "Tira o olho de dentro do carro dos outros".

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Obrigada pelo seu comentário.

 
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