Corpo que cai

É noite e faz frio. No centro da cidade um corpo tomba entre calçada e meio-fio. As pessoas juntam-se ao redor. Olhos curiosos buscam desvendar o quebra-cabeça. Um corpo tomba entre calçada e meio-fio. “Saiam, saiam" – grita a polícia. Um corpo tomba e é arrastado para o canto da rua, onde deveriam estar estacionados carros e não corpos. A sirene da ambulância afasta todos que aos poucos se retiram de cena, pois a vida precisa continuar. Arrumam-se às pressas e seguem seu rumo.

O palco é agora do corpo. A madeira aquecida pelos holofotes da estréia é trocada pelo asfalto frio. Não houve tempo para os aplausos. Retirou-se de cena para não correr o risco da vaia. É agora um peso morto. Um peso contra o chão frio. Peso para a tristeza que com pernas fracas mal suporta a tragédia. Um peso a ser ressuscitado através da lembrança dos próximos. Não estivera tão vivo antes. Invade a memória alheia para experimentar-se em vida outra vez.

O último ato é o beijo seco no asfalto. As luzes da cidade não se apagam. Os carros ganham a avenida e seguem distraídos. Não há respeito com o corpo que cai. As luzes apagadas são as dos olhos. No centro da cidade um corpo tomba entre calçada e meio-fio. De pronto, sem sobreaviso ou piedade. Cai sem pedir licença para a vida que continua.

6 comentários:

  1. E a vida continua, cambaleante e incerta, mas continua.

    bjo

    ResponderExcluir
  2. gostei desse pequeno conto, quase crônica. Curiosamente os posts que li hoje falam em perdas. Andei deixando meu corpo numa beira de calçada a poucas horas. beijo

    ResponderExcluir
  3. Jac Oliveira23:52

    Guriazinha cronista, tu escreves de um jeito bom de ler. Que bom que um lançamento de livro sempre pode nos trazer mais do que um bom livro né :)

    ResponderExcluir
  4. grande habilidade com a letras hein menina!

    A vida é assim... no fio da navalha levamos!

    bjs

    ResponderExcluir
  5. Muito bom, me imaginei dentro da cena! bjos

    ResponderExcluir
  6. o corpo vai, e os carros seguem em frente... e a vida continua, a do corpo acaba ali.


    teus textos são os melhores,
    http://sorrisosdeplasticos.blogspot.com/

    ResponderExcluir

Obrigada pelo seu comentário.

 
A Cronista © 2013 | Gabriela Gomes. Todos os direitos reservados.